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Neruda

Publicado: 17/04/2010 em Reforma da Saúde Mental
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Acontece

Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.

Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.

Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.

Que entrevista espaçosa e especial!

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A voz de um poeta

.

Esta voz rouca em que veio me afirmar

O poeta que sou, noutro já foi exemplo

De uma jóia rara em fúria do templo

Que fez dela mais alta. Por quem gritar?

.

Esta voz baixa em que veio me operar

O louco que sou, noutro já não vem p´lo

Que foi real, e nem mesmo contemplo

Mais o sinal que fiz dela. Por me almar?

.

O poeta que fui em mim fez-se o louco

Em mais sintonia comigo mesmo;

O louco que sou em mim faz-se o poeta.

.

Noutro poeta, o tom nunca foi tão pouco

Em mais harmonia, porém sendo a esmo;

Vale-me o silêncio… a alma da caneta.

.

Ivan Ribeiro

Ausência (Carlos Drummond de Andrade)

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

Quadrilha (Carlos Drummond de Andrade)

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava

Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos,

Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre,

Maria ficou pra tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.


Canção do Dia de Sempre (Mário Quintana)

Tão bom viver dia a dia…

A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas…

Motivo (Cecília Meireles)

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno e asa ritmada.

E sei que um dia estarei mudo.


Nunca ninguém sabe

Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar
Pois o meu verso tem esse quase imperceptível tremor…
A vida é louca, o mundo é triste:
vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor!

Mário Quintana

Live Once

Dia desses, acordou num sobressalto:
tinha de falar menos, ouvir mais,
aprender mais e inventar menos;

Discutir menos, engolir mais,
trabalhar mais, dormir menos,
sonhar menos e descansar mais,
Pensar mais, agir menos,
correr menos e andar mais;

Amar mais, odiar menos,
confiar menos e refletir mais,
desconfiar mais, entender menos,
julgar menos e acreditar mais
naquilo que lhe diziam:

Era assim e não fingiam
que não fossem todos, incluindo ele,
pequenos.

Escrito por Guto Lobato

Poema Louco

Durante todo esse tempo

tenho procurado alcançar

um não-sei-quê de divinal

tenho andado atarefado

tropeçando nos meus ais

acordes da canção de uma só nota

venho dos velhos mundos

sem nunca saber do novo

sou filho do moderno

sem a essência do passado

Sou cigano

vagabundo deste mundo

inconfesso

de mim nada sei

nem se sorri

nem se chorei

apelei ao meu sacrário

nele ser guardado

tornei-me mostruário

dessa vida miserável

agora meus velhos ontens

choram a insensatez de meus hojes

Já não existem cristais

que possam quebrar meus olhares

já os feriram tanto

nas sextavadas noites de luares

de negras nuvens

nem mesmo sonhos brilham

diante do meu pranto

Se vago tanto

Inexistente

oro como vagabundo penitente

tento encontrar o inascido

do que só em mim se há gerado

de João Batista do Lago