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* Relatório apresentado ao VI Congresso Brasileiro de Psiquiatria Clinica, realizado em agosto de 1997, em Curitiba

Ac. Alvaro Acioli é Membro Titular da Academia Fluminense de Medicina – Cadeira 07 Page 1 of 2

Fonte: Revista da Academia Fluminense de Medicina

As doenças devem ter aparecido na terra milhões de anos antes do surgimento da espécie humana. Há também indícios de que o homemprimitivo criou o sobrenatural depois de ter percebido que as doenças podiam ser desencadeadas por causas externas.Já em termos pré-históricos a arte de curar estava ligada à luta para controlar os demônios. Na medicina primitiva, dominada pelo animismo,os papeis de curador e de sacerdote se superpunham.

A mesma pessoa que tinha saber para tratar doenças podia salvar possessos e evitar outrosmales.Hebreus, assírios, hindus, chineses e egípcios criaram concepções próprias sobre a patogenia das doenças. E suas práticas médicasrespeitavam as idéias religiosas e filosóficas que dominavam suas culturas.Foi a obra de Hipócrates que institucionalizou a medicina ocidental, ao postular que as enfermidades se expressavam por variados quadrosmórbidos, devidos a fatores somáticos.

Outros precursores notáveis adotaram posições semelhantes, nos séculos que se seguiram a Hipócrates. Mascomo alienação da mente a doença mental permaneceu muito tempo como um tema de reflexão de filósofos e teólogos. Foram necessárias algumasrevoluções, a última das quais liderada por Pinel, para que a psiquiatria fosse inserida no contexto médico.Já os quadros tidos hoje como neuróticos, por sua habitual exteriorização clinica, estiveram sempre incluídos na medicina formal, ainda quecom nomes, conceitos e tratamentos variados.

Foi no inicio do século XIX que apareceu a palavra psiquiatria, ligada ao conceito de loucura. Mas uma revisão histórica mostra que jáexistiam antes diversas formas de assistência psiquiátrica, prestadas a quadros identificados como mórbidos, pelo pensamento médico dominante.Fatores culturais e históricos tem exercido um condicionamento ideológico sobre o saber psiquiátrico, sua prática e toda a medicina. O Cristianismo valorizou a alma individual ; o Renascimento distinguiu a razão humana; os idéias da Revolução Francesa promoveram os direitos individuais.

A psiquiatria ampliou seu campo ao integrar-se à medicina hipocrática, que estava voltada ao tratamento de pessoas. Criou um modeloclinico e terapêutico, comprometido com a defesa do indivíduo ; o “louco” passou à condição de uma pessoa que padecia de distúrbios mentais. E opsiquiatra assumiu a tarefa de colaborar ou executar trabalhos médico-sociais, orientados nesse rumo.Ao final do século passado Freud transferiu as neuroses da medicina interna e da neurologia para a psiquiatria.

E no inicio deste séculoMayer formulou sua teoria bio-psico-social, ampliando ainda mais o campo da Psiquiatria, reduzindo os limites entre o normal e o patológico eincorporando muitos comportamentos tidos como desviantes.Surge a seguir a psiquiatria forense, ligada – em seu início – ao sistema prisional. Também aparecem a psiquiatria educacional, industrial,familiar, as técnicas grupais de psicoterapia e a psiquiatria comunitária.

E se desenvolvem planos de prevenção e tratamento das coletividades, apsiquiatria epidemiológica, transcultural e programas de saúde mental.O conhecimento teórico e a aplicação prática é o ponto de confluência dessas vertentes, todas elas nascidas da interação com o meio social.Foram respostas que a psiquiatria ofereceu às mudanças sociais aceleradas, ao crescimento demográfico, à urbanização e à industrialização.

E também ao desenvolvimento das comunicações de massa, a transformação dos valores culturais, econômicos e políticos, conseqüentes ao avançotecnológico. A responsabilidade da psiquiatria atual excede ao tratamento do indivíduo; suas preocupações se estendem ao cuidado com grupos sociais diversos e, principalmente, com a estrutura e o funcionamento da própria sociedade. A caminhada histórica mostrou que a psiquiatria tem o dever detrabalhar em benefício das grandes coletividades.

E que se deve fazê-lo sem qualquer pretensão elitista de assumir poderes, nem tentar satisfazerdesejos corporativistas.Mas o avanço no rumo social ainda cria muitas dificuldades para a grande maioria dos psiquiatras, treinados para uma atuação maisindividual. Poucos são os profissionais capazes de atuar num campo minado por conflitos que decorrem de interêsses sociais conflitantes.O trabalho comunitário da psiquiatria exige hoje competência para identificar as influências sociais implicadas em um grande número demanifestações clinicas.

E também capacidade para atuar com eficiêncianas situações críticas que as doenças e os doentes criam para as suas comunidades.Modelos impostos pela cultura podem mascarar síndromes exibidos por enfermidades comuns. E condicionar igualmente comportamentospassíveis de serem interpretados como psicológicos, num exame superficial. Por isso o Psiquiatra e todos os profissionais de saúde devem avaliartambém os riscos sociais que correm seus pacientes.

E também não impedir que pacientes e familiares procurem outros recursos comunitários,especialmente quando a psiquiatria tem pouco a oferecer ou não pode responsabilizar-se inteiramente por seus casos.Os conhecimentos psicopatológicos clássicos não esclarecem todas as condutas sociais possíveis. Esse fato aumenta a necessidade de que apsiquiatria busque conhecimentos complementares, particularmente junto à sociologia, psicologia, antropologia e a comunicação social.

Tanto os programas preventivos como os terapêuticos devem ser concebidos numa perspectiva multidisciplinar, pois os distúrbios psíquicostanto sofrem influências de fatores sociais como despertam manifestações dessa natureza. Esse fato esclarece porque uma grande parte dopensamento psiquiátrico impregnou-se com muitas visões históricas e ideológicas, dos grupamentos sociais onde atua.

O modelo organicista da doença mental foi grandemente estimulado pelo movimento político-social, do início do século XIX, que buscavauma verdade positiva e científica, tendo a ordem e a classificação como referências básicas. Foi o período da investigação cerebral, da descrição desíndromes, da tentativa de estabelecer ligações concretas entre etiologia, anatomopatologia, sintomatologia e curso clinico dos quadros mórbidos.

A limitação das propostas etiológicas e o estímulo ao asilo eram os aspectos mais negativos da posição organicista. Sabe-se hoje muito bemquanto o confinamento asilar acentuava e ainda acentua a alienação, a dissolução da identidade, os preconceitos de periculosidade e de cronicidade. Essa vertente psiquiátrica marcou-se por programas de higiene mental centrados em campanhas antialcoólicas, antiluéticas e eugênicas.

Os métodos biológicos de tratamento em Psiquiatria tiveram inicio com a malarioterapia, que interrompeu um longo período de descrença terapêutica.

Posteriormente o desenvolvimento industrial acelerou as pesquisas sócio-psiquiátricas e clinicas. Surgiram procedimentos mais objetivos, queutilizavam recursos de todas as fontes, fossem farmacológicos ou sociais, visando sobretudo reduzir a hospitalização e aumentar o atendimentoambulatorial.

Mas a sociedade que tentava abolir os asilos era a mesma que dificultava a reintegração social dos pacientes. Uma sociedade que recusava-se a receber de volta os pacientes hospitalizados por muito tempo, que apresentava um comportamento que Rotondo chamou de “síndrome deexclusão familiar”.A psiquiatria moderna tem se esforçado para transformar seus hospitais em instituições abertas, aperfeiçoando modelos terapêuticos eampliando a atenção primária. E no campo assistencial melhorando o atendimento prestado nas situações de crise.

E no plano político procurando identificar as mudanças que provocam ou reduzem o sofrimento social.Todas as etapas históricas ofereceram uma contribuição inestimável para a evolução do pensamento psiquiátrico. Certamente não teriadeclinado a incidência das múltiplas síndromes pós-encefalíticas sem o desenvolvimento dos estudos imunológicos e da antibioterapia. O surgimentodas psicoterapias institucionais e dos serviços abertos viabilizou-se pelo grande avanço das tarapêuticas biológicas.

Sem os recursos da psicofarmacologia não se poderia defender hoje a desospitalização, muito menos a instalação de unidades psiquiátricas nos hospitais gerais.Por outro lado a obra de Freud e de seus discípulos multiplicou o conhecimento da relação indivíduo-família-sociedade-cultura, abrindocaminho para o estabelecimento das teorias sobre a sociogênese das perturbações mentais.A caracterização da doença mental e a definição conceitual da psiquiatria estiveram e ainda continuam sujeitas a radicalizações ideológicas,vinculadas aos sistemas culturais e políticos.

Tratar os considerados enfermos e regulamentar a vida dos tidos como normais são dificuldades entre as quais flutua a psiquiatria.Essa delicada posição explica muitas das críticas e denúncias lançadas contra a Psiquiatria. E quanto mais forte a patogenia alienante domodelo social mais a psiquiatria tem sido acusada de ser um instrumento a serviço do poder normalizador.A Psiquiatria está, por isso mesmo, obrigada a considerar, permanentemente, como a única maneira de posicionar-se com clareza.

Os novos tempos recomendam que a proposta social da psiquiatria deva principalmente :1. examinar a sociogenia de todos os quadros psicopatológicos;2. orientar seus trabalhos de pesquisa para temas que interessem, preferentemente, a comunidade maior;3. estender às grandes massas os recursos e avanços que estão colocados a serviço de minorias;4. ajudar os poderes públicos a abandonar práticas burocráticas e controles políticos que causam desvios e desorientação social;5.evitar os abusos que são cometidos em sua própria prática, consequentes à grande pressão social, econômica e política que ospsiquiatras estão sofrendo ;6. defender a liberdade e a dignidade de todos os homens e não apenas a integridade física e mental dos enfermos que tenta tratar.

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Fonte: Saúde Mental e Harmonização

Gostaria de começar este artigo pedindo, pelo amor de Deus, que parem de colocar no médico psiquiatra a culpa pelas dores do mundo! Porque? Ando lendo os blogs dos outros. A grande maioria acredita que os psiquiatras inventam doenças e classificações para podermos rotular este ou aquele indivíduo, ou nos utilizar destes para condenar ao confinamento eterno pessoas portadoras de algum transtorno mental roubando-lhes a possibilidade de serem felizes e inseridos na sociedade. Oras, também concordo que as coisas estão indo além do limite, mas não jogo a culpa em ninguém. Recentemente recebi um e-mail de uma empresa de pesquisas questionando-me se conhecia uma determinada patologia a qual nunca tinha ouvido ou lido antes. Procurei na internet a referida e constatei que a mesma existe e até tem um remédio específico para ela. Exemplos como a síndrome do desejo sexual hipoativo, a síndrome da excitação sexual persistente, a urticária aquagênica, a síndrome hipertimésica, que são rotulações mais recentes, nada mais são do que condições observadas e já descritas na Psicopatologia fenomenológica e nas classificações do CID-10 e do DSM-IV-TR sob outros nomes. Quem teve um bom curso destes irá se lembrar bem. Interessante notar que utilizam-se apenas de um sintoma para já transformá-lo numa síndrome (conjunto de sinais e sintomas). Por vezes também tenho a fantasia que as indústrias farmacêuticas descobrem uma substância e depois vão atrás de saber qual seria a sua aplicação. Por isso fico atento às classificações das patologias publicadas pelas diversas associações nacionais e internacionais (OMS, APA, OPAS, só para citar alguns) e aos avanços mais sérios das pesquisas clínicas nacionais e internacionais sobre novos psicofármacos.

Das “patologias” citadas acima, uma dela já tem até um remédio que nunca antes tinha ouvido falar, a flibanserin para o tratamento do desejo sexual hipoativo. Esta substância está na Fase III de pesquisa clínica, inclusive no Brasil.

Mas o que me fez escrever este artigo é para dizer que o psiquiatra não tem nada a haver com estas rotulações, que concordo, muitas vezes são humilhantes. Por vezes é a própria mídia quem faz isso. Ainda me lembro das aulas de Anatomia Patológica com o Prof. Dr. Jorge Michalany, na Escola Paulista de Medicina, quando se empolgava e discutia raivosamente os termos utilizados pelos jornalistas para descrever uma ou outra condição médica. Ele repreendía quando perguntava se era infarto ou enfarte e nós não sabíamos a resposta. Assim fazia com muitas outras expressões utilizadas pela mídia da época. Era alguém que impunha respeito pela sua sabedoria.

Acredito que se a condição em que se encontram os serviços e políticas de Saúde Mental estão da maneira como estão, não é culpa apenas do psiquiatra e sim culpa de TODOS, por palavra, obra ou omissão. E já que cada um pegou a sua parte, agora vamos TODOStrabalhar por um futuro melhor!

Área da ciência que estuda os fatores psíquicos do ser humano, cuidando com eficácia das necessidades do paciente psicológico e psiquiátrico, levando em consideração os fatores pelos quais denotam o diagnóstico psíquico, onde mui referencia o tratamento medicamentoso que atua na defesa da dignidade buscada pelo indivíduo.

Muitos buscam meios de tratamento a partir de internações esporádicas e dolorosas para o paciente, mas nos últimos anos as “clínicas dia” têm colaborado para um bom tratamento pessoal e mais eficaz, amenizando assim a vida do paciente, que por haver um tratamento a base de terapias se sente alegre e útil para dar continuidade a vida tão grande e maravilhosa

É necessário que se desenvolva um clima de confiança para que o paciente exponha seus sentimentos, problemas, vivência e aspectos muito pessoais que envolvem áreas delicadas de sua vida.

Existem várias formas de terapia que utilizam técnicas e abordagem diversas sempre confiando á relação de confiança. A forma de terapia assumida, lidará com problemas apresentados pelo paciente. A psicologia e psiquiatria atuam de forma particular, pois a cada caso há um motivo e razão a ser estudada.

* Joanan é usuário do serviço de saúde mental CAPS-III  em SBC