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…lendo o excelente “Seguir a aventura com Enrique Jose Pichon-Rivere:uma biografia”,do Marco Aurelio F.Velloso e Marilucia Melo Meireles,Ed. Casa do Psicologo,2007,deparei-me com este elucidante texto …Conhecimento e sabedoria encontram-se nos mais inusitados lugares e momentos..

Com a intenção  de contribuir aos processos  grupais em que os leitores estejam inseridos..
Agradeça ao Drauzio, eu soh transcrevi.

O titulo também   poderia ser

“MEMORIAS CATATONICAS”…

O ASSASSINATO DO DR. LECUBE

Jah no fim do primeiro ano de permanencia de Pichon no Hospicio de las Mercedes(1937), ocorreu um acontecimento dramático, o assassinato do Dr. Lopez Lecube por um grupo de pacientes.
Este fato serviu não so para validar suas primeiras  hipóteses sobre a tecnica dos grupos operativos, mas, também para incluir outros elementos fundantes relacionados a dinamica de papéis.
..o Dr Lecube era o Psiquiatra-Chefe do Serviço ao qual Pichon estava vinculado no hospital. Foi também amigo de sua familia desde o tempo de Goya e o introduziu na especialidade da psiquiatria.
O Dr. Lecube foi encontrado, degolado, sentado na poltrona onde descançava, debaixo de uma arvore,em frente ao pavilhão  da direção do hospital.
Este episódio,como não podia deixar de ser, causou um impacto institucional sem precedentes no Hospicio de las Mercedes.
Pichon foi também muito afetado pela situação,tanto no plano pessoal quanto familiar. Sua mae novamente interveio,querendo desta vez, faze-lo desistir da profissão de psiquiatra.
Alem dos aspectos pessoais envolvidos em razão do seu relacionamento c/ o Dr.Lecube,a situação assumiu cores mais fortes, jah q foi Pichon quem o substituiu em seu posto de Psiquiatra-Chefe de Serviço no Hospicio.
Nessa nova condição institucional, dedicava-se a uma profunda reorganização do atendimento. Ao mesmo tempo  em q atendia os pacientes, conseguiu reconstruir todo o histórico do processo através do qual o grupo de internos se organizou com o objetivo de matar o Dr. Lecube.
O Dr.Lopez Lecube, com origem na aristocracia rural argentina, era um psiquiatra autoritário q tratava os pacientes como “peoes de estancia”, na expressão utilizada pelo proprio Pichon. Correspondia ao modelo tipico dos medicos psiquiatras q trabalhavam em hospicios naquela epoca. Pichon dizia q eles não atendiam os pacientes, não tinham nenhum  contato direto c/eles e trabalhavam apenas por “delegação”, tendo os enfermeiros como intermediários.
Nos comentários q fazia a esse respeito, chamava atenção p/o perigo do tratamento desqualificante e humilhante inflingido aos pacientes. Suas conseqüências podem ser imprevisiveis,como ocorreu neste caso.
Conta-nos Pichon:
“O episódio ocorreu durante meu primeiro ano de medico e significou também a comprovaçao do perigo que comportam as formas ditatoriais ou desrespeitosas de tratamento, proprias da medicina desta epoca, que, POR DESGRAçA, em grande medida, subsistem. Essa forma de enfrentar  o paciente eh inumana, mas, alem disso, ineficaz do ponto de vista estritamente cientifico”.
Nas conversas q manteve com um paciente catatonico q integrava este grupo, Pichon pode recuperar, na medida em q lhe foi possivel, o “modus operandi” q os pacientes utilizaram p/ levar a cabo seu proposito. Esse paciente  lhe relatou q trabalharam, durante todo o tempo, em grupo.
A maneira como se organizaram e executaram o assassinato impressionou muito Pichon.
Realizaram um verdadeiro ritual grupal, organizando-se com todos os requintes de um complo. Conseguiram um cabo  metalico de uma colher e o limaram ateh transforma-lo numa faca. Sentavam-se em circulo, num lugar ermo do hospital, de forma a não serem observados.. O cabo da colher ia passando de um para o outro, no trabalho de limar. Enquanto faziam isso, conversavam e elaboravam seu plano. Ao final,quando conseguiram terminar a fabricação da arma, sortearam entre eles quem deveria executar, em nome de todos, o ataque ao medico, como seu braço executor. O escolhido foi um cabelereiro andaluz, habilidoso no manejo de navalhas, que agiu como verdadeiro toureiro.
Esse paciente, de forma sorrateira, para não ser percebido, se aproximou por tras, entre outras arvores ali existentes, e atingiu-o com uma rapidez incrivel, degolando-o. O Dr. Lecube permaneceu inerte, sentado em sua poltrona debaixo da arvore, em frente do pavilhão da direção.
Diante do relato q lhe fez o paciente, Pichon se dedicou ao exame da dinamica utilizada por eles no manejo dos papéis grupais.
O paciente catatonico, com o qual conseguiu estabelecer um bom vinculo, funcionou como o depositario  das  informações, o lider do silencio, uma especie de memoria viva grupal.
A circulaçao do cabo de metal entre os membros do grupo mostrava a mobilidade de papéis dentro de uma articulação de complementariedade em rede, na qual cada um executava por sua vez a funçao desejada pelo grupo.
Da observação deste mecanismo, Pichon deduziu o processo de atribuição (adjudicaçao) e assunçao  de papéis, assim como as relações de complementariedade e suplementariedade q ele comporta: o grupo atribui a cada um de seus membros um papel. Cada membro pode ou não assumir o papel q lhe eh conferido(adjucado). Quando o aceita, ocorre a complementariedade na rede vincular q estah sendo dramatizada   pelo grupo.
Na verdade, o q o grupo possui eh um arsenal de redes de papéis complementares disponíveis. Para não aceitar a atribuição  de papel q o grupo lhe confere, o participante deve assumir outro papel, q faz parte de uma serie diferente daquela  q estah sendo utilizada pelo grupo, naquele momento0 Ao assumir este novo papel, por sua vez, provocarah os membros do grupo, como q lhes impondo papéis q fazem parte de uma outra serie de complementariedades.
O espaço do grupo, entao, fica preenchido por uma ambiguidade. Duas series de papéis, q são incompativeis entre si,disputam a preferência dos membros do grupo. Pichon denominava esta situação de suplementariedade de papéis.
Como se ve,trata-se de um processo muito dinamico, q envolve todos os participantes do grupo de uma soh vez.
Essa situaçao serah resolvida no momento em q os membros do grupo optarem pela serie de papéis complementares q irão utilizar…
…Ao ser perguntado sobre a conclusão q tirava destes acontecimentos, Pichon respondeu:
“Algo q, no fundo, jah sabia: todo doente mental, como qualquer homem, deve ser tratado com dignidade. Não se pode, impunemente, rebaixar ou humilhar outro ser, menos ainda quando, quem o faz,estah exercendo um certo poder publico”.

Isso jah em 1937/1946…64 anos atras,pelo menos!

Leiam o livro,alem de altamente util para quem eh ou se interessa pela area, eh delicioso de ler!!

ENJOY IT!

Higéia

Duas culturas sanitárias bem antigas convivem entre nós: a da PREVENÇÃO e a da REPARAÇÃO (ou cura). Já foram simbolizadas pelo semideus grego da medicina, ESCULÁPIO e suas filhas HIGÉIA e PANACÉIA.

Vejamos as vicissitudes da vida das duas irmãs, do século XIX aos tempos atuais: apogeu e perda de prestígio da saúde pública inglesa e da medicina social (ou polícia médica) francesa; o vertiginoso fortalecimento contemporâneo da cultura sanitária da reparação (transplantes imunobiológicos, cirurgias com laser, engenharia genética aplicada a medicina), novos fármacos. Panacéia rouba de Higéia a mortalidade materno-infantil.

Mas Panacéia não cometeu,contra sua irmã Higéia,sororicidio. A tarefa dos intelectuais e práticos de saúde,hoje, é reconciliar as irmãs e dar origem a uma NOVA CULTURA SANITÁRIA DE SÍNTESE.
Duas velhas culturas sanitarias,dois modos distintos(socialmente condicionados,como sempre) de abordar a doença mental:para os POBRES os manicômios,para os RICOS E A CLASSE MÉDIA atendimento individualizado.Nestas duas opções,dois modos implícitos de conceber a articulação entre o biológico e o social,entre DESTINO E CULTURA. Até mesmo uma contingência do modo de organizar e financiar os serviços ganhou foro de teoria: a teoria de que a eficácia da terapêutica depende do ato de pagar as consultas e sessões dos pacientes…
A cultura sanitária de síntese deve conceber o social passando pelo biológico. Deve compreender de modo dialético a articulação rica,complexa, entre o individual e o coletivo, a história da vida e a história da sociedade.
Toda a presente reflexão sobre a necessidade e os contornos da nova cultura sanitária e iluminada, e impregnada, de nossa experiência no campo da saúde mental.
Nós partimos de uma ação drástica, que ganhou grande repercussão: a intervenção na Casa de Saúde Anchieta, no dia 3 de maio de 1989. Motivada por denúncias de maus tratos e até mortes de pacientes,a intervenção foi cuidadosamente planejada: optamos por,digamos assim, pegar o touro pelo chifre,por enfrentar o tema da saúde mental pelo que tem de mais agudo, O LOUCO E O MANICÔMIO.
Fizemos um balanço da experiência de mais de dez anos de instalação dos ambulatórios de saúde mental em centros de saúde em São Paulo. Nenhum leito manicomial desativado. Na melhor das hipóteses, essa rede atendeu uma demanda reprimida. Na pior,criou uma demanda artificial,recrutada entre gestantes,escolares,adolescentes,idosos,pacientes etc. Os loucos continuaram sendo internados em manicômios públicos ou controlados por diversos profissionais PSI, eventualmente passando temporadas em clínicas especiais.
Resolvemos começar pelo hospício,e depois construir a rede ambulatorial (NÚCLEOS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAIS-NAPS). Nossa experiência não é apenas positiva,treze meses depois: eh facinante. Nosso modelo assistencial em saúde mental não trabalha com a idéia da atenção primária. Nossos NAPS fazem TODOS OS NÍVEIS DE ATENÇÃO, e são ambulatoriais e hospitalares (eu diria,hospitaleiros também) ao mesmo tempo.Não fecham nunca. E trabalham dentro e fora de suas sedes. Nosso modelo assistencial realiza,e exige,novas identidades profissionais: novos psiquiatras, novos psicólogos,assistentes sociais,terapeutas ocupacionais,enfermeiros,novas profissões,velhas profissões na equipe de saúde (gente de teatro,música,esporte,etc).

Mas, nosso modelo assistencial também exige uma nova cultura na própria sociedade. Ao intervir na cidade,com suas pinturas,manifestações,vídeos,jornais e festas, o trabalho em saúde mental renova valores que são aspirações seculares da humanidade: valores democráticos,de liberdade e igualdade.
Valores que brotaram na Revolução Francesa,há 201 anos, sob o nome de fraternidade, e que hoje traduzimos como SOLIDARIEDADE.

Apresentado em Porto Alegre,15 de junho de 1990

COSTA FILHO,David Capistrano, in
“DA SAÚDE DAS CIDADES”,Hucitec,SP,1995

“Este texto dá uma dimensao de pertencimento,inovação,construção política e resultado sanitário incontextável. Décio Alves”