Projeto de lei cria mercado para animação nacional

Publicado: 27/03/2011 em Sem categoria
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Materia da Midiativa

Em vez de Yu-Gi-Oh!, DragonBallZ e BeyBlade, desenhos da Turma da Mônica,
versões animados das histórias de Monteiro Lobato, ou talvez adaptações de
Ana Maria Machado. Se depender do Projeto de Lei 1821/03 do deputado federal
Vicentinho (PT-SP), o diletantismo forçado dos animadores brasileiros pode
estar com os os dias contados.

O texto do projeto, que será analisado nos próximos meses pela Comissão de
Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados, e tem Íris Simões (PTB-PR)
como relator, estabelece que as emissoras dos canais pagos e da TV aberta
deverão exibir desenhos animados produzidos no Brasil. No primeiro ano de
vigência da lei, se aprovada, 10% da programação de desenhos deverá ser
composta por animações brasileiras, percentual que deve aumentar 10 pontos a
cada ano, até alcançar 50% no quinto ano de vigência da lei.

“Percebi que meus filhos só assistiam a desenhos japoneses e americanos, que
muitas vezes são violentos e alienantes, e refletem apenas a cultura de seus
países. O projeto quer resgatar a cultura brasileira para nossas crianças, e
dar liberdade para a criatividade dos animadores, desde que as produções
estimulem uma cultura de paz, promovam a solidariedade e combatam
preconceitos de qualquer tipo”, explica Vicentinho.

Para se encaixar nos padrões de conteúdo imaginados pelo autor do projeto, o
desenho animado deverá conter princípios éticos, morais e de cidadania,
refletir a cultura nacional e regional, entre outros temas politicamente
corretos. Para ser classificado como “produção nacional”, o desenho deverá
empregar em sua produção profissionais que morem no Brasil, ser criado por
roteirista brasileiro ou produzido por empresa ou organização sediada e
operando no País.

A notícia foi bem recebida no círculo dos animadores. Para Marcos Magalhães,
cineasta de animação e um dos diretores do festival Anima Mundi, o projeto
precisa ser melhorado para se adaptar à realidade brasileira, mas é uma boa
notícia não só para os animadores, mas também para as crianças. “A animação
é uma linguagem muito próxima da criança, e todos os animadores que produzem
já fizeram algo para este público, há uma ligação forte com o universo
infantil”, recorda. Para ele, estimular a produção nacional está longe de
ser uma utopia, desde que haja vontade política e participação ativa da
sociedade. “É importante considerar que a animação é um setor estratégico,
não só da cultura nacional. A França vivia uma situação similar ao Brasil.
Em uma cultura tão forte como a francesa, a sociedade estava preocupada com
as crianças, que assistiam apenas a desenhos animados americanos e
japoneses. A sociedade realizou um grande esforço para mudar o cenário,
criando várias medidas de proteção, organização e incentivo ao cinema de
animação. Hoje a França é um dos grandes produtores mundiais de animação, e
as crianças assistem a uma boa parte de animação francesas. De 12 anos para
cá, a França virou potência, com produção de séries de TV, longa metragens,
video-games”, destaca.

O Anima Mundi nasceu em 1993, e hoje é um dos festivais mais disputados em
São Paulo e no Rio de Janeiro, e há sete anos conta com patrocínio da
Petrobras, da através da Lei de Incentivo à Cultura (Minc), e a participação
de várias outras instituições e empresas. Em 2003, como nos demais anos, o
Anima Mundi bateu recorde de público: mais de 80 mil pessoas disputaram a
tapa a oportunidade de participar de palestras e oficinas, e ver quase 600
animações de 39 países, com as mais variadas técnicas, sem esquecer as
principais produtoras da Europa e EUA.

O festival também estimula a produção de animações para a Internet, com o
Anima Mundi Web, e é palco de premiações em dinheiro para os melhores
animadores brasileiros. As sessões dedicadas ao público infantil fazem
bastante sucesso, além de revelar os talentos nacionais. O festival também
gerou um filhote muito promissor: o projeto Anima Escola, parceria com a
Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, que leva o modelo do Estúdio
Aberto, oficinas de animação do festival, para alunos das escolas públicas
da capital carioca.

O projeto de lei de Vicentinho criaria automaticamente para o cinema de
animação um mercado que hoje inexiste, o que obriga a maioria dos animadores
brasileiros a atuar em outras praias. Nenhum animador nacional dispõe da
estrutura e da popularidade de um Mauricio de Souza, criador da Turma da
Mônica, que chegou a fazer longas de animação para um público cativo dos
personagens das histórias de quadrinhos, e tem espaço praticamente garantido
para suas produções. Recentemente, ele cedeu os direitos de uso de seus
personagens ao MEC, com o objetivo de exibir desenhos educativos para
crianças em idade pré-escolar em canais como TV Escola, TV Senado e TV Cultura.

Todos concordam que é preciso criar incentivos para viabilizar a proposta.
Para Magalhães, produtores é que não faltam para suprir a demanda incial de
10% que o projeto exige. “O Brasil tem muitos talentos espontâneos, muita
gente que faz porque gosta, e estão surgindo cada vez mais produtores. Mas
com a abertura do mercado, deve haver incentivo também para a animação como
já existe em outras áreas da cultura”, recorda. Arnaldo Galvão, diretor da
Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), faz coro na questão da
criação de mecanismos de incentivo para a produção nacional. “O cinema de
animação tem características específicas de produção. As regras dos editais
do setor audiovisual nem sempre são as mais apropriadas para o cinema de
animação”, ressalta. Vicentinho também garante que fará sua parte para o
projeto vingar e não ficar só no papel. “Se a lei for aprovada, vou lutar
para a criação de mecanismos de incentivo para o cinema de animação junto ao
Ministério da Cultura”, garante.

Se for aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia, o projeto seguirá para
a Comissão de Constituição e Justiça e Redação, e em última instância, será
avaliado pelo Senado Federal.
http://www.midiativa.tv/index.php/midiativa/content/view/full/645/

Leia também entrevista com Arnaldo Galvão, presidente da Associação
Brasileira de Cinema de Animação.

“O cinema de animação é quem primeiro fala com as crianças”

Com passagens pelo estúdio de Mauricio de Souza e TV Cultura, onde fez
parte da equipe de animação dos programas Rá-Tim-Bum e Glub-Glub, Arnaldo
Galvão é um dos veteranos produtores da arte da animação no Brasil. Com mais
de dezessete filmes de animação no currículo e direito a retrospectiva de
seus filmes no festival Anima Mundi, é diretor da Associação Brasileira de
Cinema de Animação, criada em 2003. Em entrevista ao MIDIATIVA, ele fala
sobre o impacto do projeto de lei que institui cota de 10% de desenhos
animados brasileiros na programação das emissoras de TV.

MIDIATIVA – Quais os pontos altos do projeto, e os que precisam ser
reavaliados?

ARNALDO GALVÃO – O cinema de animação é uma poderosa ferramenta de
comunicação, e é quem primeiro fala com as crianças. Então, esse projeto vem
em uma hora muito oportuna, já que estamos preocupados com que tipo de
informação as crianças recebem no principal período de suas vidas.

Além da grande importância cultural, esse projeto vai ser um grande gerador
de empregos e divisas. Hoje em dia gastamos muitos recursos com a compra de
filmes importados, que chegam ao Brasil subsidiados, impossibilitando o
desenvolvimento da indústria local.

Entretanto, é preciso cuidado na hora de implementar e criar condições de
infraestrutura para que os realizadores consigam os recursos necessários, e
lembrando que não basta produzir. É preciso atenção com distribuição,
exibição, formação de mão de obra e preocupação com nossa história.

Outro ponto de atenção são os nossos temas. A palavra diversidade cultural
pode fazer sentido em outros países, mas no Brasil está impregnada em tudo o
que fazemos. O nosso cinema de animação, mistura de arte e indústria, tem
obrigação de ficar com o coração e a cabeça abertos a tudo que se passa em
volta.

MIDIATIVA – A Associação pretende contribuir para a redação final do
projeto? O que você sugeririam?

ARNALDO GALVÃO – Acho que temos muito a contribuir até a redação final do
projeto. A ABCA ainda não tem um ano de vida, mas tanto os associados como
os diretores são pessoas que trabalham com cinema de animação há mais de 20
anos. Temos experiências variadas de produção industrial, como na Mauricio
de Souza, onde durante um período funcionou uma grande equipe de mais de cem
pessoas, que produzia um longa por ano, ou educativos como no Rá-Tim-Bum,
onde uma equipe de 12 pessoas produziu mais de uma hora de animação em um ano.

Queremos um grande acordo. Escutar todas as partes interessadas. Fomentar
todas as etapas do trabalho. Preparar um cronograma de curto, médio e longo
prazo. Estabelecer metas. Investir em pessoas, roteiristas, contadores de
história, desenhistas, animadores e diretores e também em equipamentos e
tecnologia.

MIDIATIVA – Existe uma demanda reprimida na produção nacional, suficiente
para suprir os 10% sugeridos pelo projeto?

ARNALDO GALVÃO – Hoje, que não temos demanda nem insumos para a produção. O
Anima Mundi recebe mais de 200 filmes de curta metragem por ano, que são
produzidos no Brasil por iniciativa dos próprios realizadores. É um número
bastante expressivo. Por outro lado, temos espalhados pelo Brasil não menos
de 300 produtoras, que vivem da produção de filmes publicitários e
institucionais. É importante falar que a produção de publicidade no Brasil é
uma das melhores do mundo, e que essas produtoras estão equipadas com
recursos humanos e tecnologia para multiplicar sua produção em animação.

MIDIATIVA – O projeto pretende aumentar a participação para 50% no quinto
ano. Para que essa produção realmente exista, é necessário criar mecanismos
de incentivo para os animadores. O que está sendo feito nesse sentido?

ARNALDO GALVÃO – O cinema de animação tem características especificas de
produção, que se diferem do filmes ao vivo. Assistimos no último ano um
esforço do Ministério da Cultura, da Ancine e Petrobras no sentido de
fomentar o audiovisual e multiplicar o número de editais para roteiro,
produção, finalização e distribuição. As regras desses editais nem sempre
são as mais apropriadas para o cinema de animação. O primeiro passo seria
observar essas diferenças e criar regras específicas.
http://www.midiativa.tv/index.php/midiativa/content/view/full/644/

Enviada por: Arnaldo Galvao

Fonte: cinebrazil

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comentários
  1. Ricardo Sconamiglio disse:

    Acredito que esta iniciativa é muito importante para o resgate e construção de nossa identidade (entidade humana social e cultural).
    A animação promove a mudança social fazendo uma interligação entre nossa dimenssão culural, com certeza será grande a contribuição neste aspecto.

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