GORDURA VICIA?

Publicado: 04/09/2010 em Sem categoria
Tags:,

Fonte: Consultoria Nutricional

Em Abril de 2010, a revista Época publicou um artigo intitulado: “Comer mal é um vício ou temos escolha?”, no qual citava uma pesquisa que relacionou a compulsão por alimentos gordurosos ao vício em drogas como a cocaína e a heroína.

Normalmente, o termo dependência química é associado às drogas como cocaína, heroína ou crack. A orientação é manter a distância destas drogas chamadas ilícitas. No entanto, a comida gordurosa, que está muito próxima de nós também está sendo acusada de causar dependência. Uma pesquisa da revista Nature Neuroscience realizada em ratos sugeriu que o consumo de alimentos ricos em gordura causaria uma dependência semelhante à observada em viciados em cocaína ou heroína. O estudo, feito pelo Scripps Research Institute, no Estado americano da Flórida, afirma que, assim como o vício em drogas, a compulsão por comidas gordurosas, como doces e frituras é extremamente difícil de ser combatida porque seria o mesmo mecanis¬mo cerebral do vício humano em drogas.

Esta pesquisa dividiu os ratos em três grupos, de acordo com o tipo de dieta oferecida: o primeiro recebia uma dieta balanceada, o segundo uma alimentação saudável, mas tinha acesso durante uma hora por dia a alimentos com alto valor calórico, e o terceiro grupo comia apenas alimentos calóricos. Os animais do terceiro grupo comeram compulsivamente e após 40 dias estavam mais gordos e tiveram os centros cerebrais de prazer acionados da mesma maneira que ratos drogados com cocaína e heroína. A experiência ofereceu alimentos que provocam obesidade se consumidos em excesso, como bacon, salsichas e cheesecakes e os animais começaram a engordar imediatamente. Da mesma forma como ocorre no cérebro dos dependentes químicos, os ratos superalimentados apresentaram uma redução acentuada nos níveis de substâncias responsáveis pelas sensa¬ções de prazer, conhecidas como receptores de dopamina. O mecanismo pelo qual isto ocorre é simples: drogas como a cocaína ou alimentos gordurosos estimulam a liberação de dopamina, mas com ela em excesso, o organismo se defende, reduzindo o número de receptores. Após a redução dos receptores, o organismo fica menos sensível, ou seja, necessita de quantidades de gordura cada vez maiores para que o cérebro se sinta saciado, assim como, se a redução nos receptores continuar, o vício se instala. O estudo confirmou em laboratório pela primeira vez o que muitos especialistas já desconfiavam sobre o vício causado por alguns tipos de alimentos.

Segundo Paul Kenny, que coordenou a pesquisa de três anos, uma dieta com alimentos gordurosos vicia, pois os animais perderam completamente o controle sobre seu hábito alimentar, o primeiro sinal de vício. Assim como, eles permaneceram comendo demais mesmo quando eram avisados que receberiam choques elétricos, mostrando o quão estimulados eles estavam para consumir a comida. O cientista relatou que, quando a dieta foi substituída por alimentos mais saudáveis, alguns deles se recusaram a comer e preferiram não se alimentar. Paul Johnson, coautor do estudo, espera que esta pesquisa mude a maneira como muitos pensam sobre comida, pois ela demonstra como a oferta de comida pode causar superalimentação e obesidade. A matéria da revista Época levanta algumas questões sobre o vínculo da dependência química ao alimento e sugere que os consumidores seriam manipulados pela indústria do fast-food da mesma forma como as pessoas são aliciadas por traficantes para o consumo de drogas. Assim como, apoiaria os que consideram a indústria de alimentos inescrupulosa por tornar as pessoas reféns e que ela não se preocuparia com a saúde dos consumidores. Logo, as pessoas precisariam de regras quase policiais para controlar a alimentação da mesma forma como precisa da polícia antidrogas. Além do que, estas questões não seriam solucionadas através do livre-arbítrio de cada um, mas sim através de evidências científicas.

Em 1981, outro estudo também com ratos e tóxicos, realizado pelo psicólogo canadense Bruce Alexan¬der, da Universidade Simon Fraser comparou dois grupos de ratos. Um grupo ficava em um parque espaçoso, aqueci¬do e com brinquedos coloridos e outro gru¬po de ratos ficava engaiolado e rece¬bia água com morfina por 57 dias, até ficar viciado e depois foi oferecida água pura como opção. O grupo engaiolado permaneceu bebendo água com morfina e o do parque diminuiu gradualmente o consumo da droga. Este último, mesmo com sintomas de abstinência, quando recebiam água com morfina, preferiam beber água pura. Este pesquisador concluiu que em um am¬biente saudável, os ratos (e por analogia talvez o ser humano) são capazes de se livrar mais facilmente de um vício, sendo necessárias apenas as condições para realizar a escolha certa. Substâncias viciantes, como o álcool, tabaco, remédios e uma infinidade de substâncias ilegais estão sempre por perto, mas não causam obrigatoriamente o vício. Em relação aos alimentos ocorre da mesma forma, onde o vício dependerá das escolhas individuais e das circunstân¬cias. Segundo o psiquiatra Marcelo Niel, da Universi¬dade Federal de São Paulo, há diferentes predisposições ao vício que dependem de fatores gené¬ticos e ambientais, dentre as quais alguns se tornam usuários de drogas recreativamente sem serem viciados, enquanto outros se tornam dependentes, mas que precisam ser melhor esclarecidos. O comportamento compulsivo seria uma válvula de escape para ativar centros de prazer. Segundo Niel, alguns pacientes que comem por compulsão, ao tirarmos a comida, eles podem desen¬volver sintomas psiquiátricos mais pro¬nunciados.

Outros mecanismos além dos citados na matéria podem estar envolvidos na relação do consumo de gordura e obesidade. Em 2010, uma pesquisa da revista científica The Journal of Neuroscience, em animais, concluiu que a exposição materna durante a gestação a uma dieta com elevado teor de gorduras, independente da obesidade materna, aumenta o risco de desenvolver distúrbios comportamentais no feto, tais como a ansiedade. A ansiedade seria causada por alterações nos mecanismos da serotonina, um neurotransmissor (envolvida na comunicação entre as células do cérebro) que parece ter algumas funções, como controle da liberação de alguns hormônios e a regulação do sono, do apetite e ansiedade.

A pesquisa compara o vício às drogas ilícitas ao vício por alimentos gordurosos, o que estaria diretamente relacionado ao maior risco de obesidade. Um questionamento importante também é o real papel e poder da indústria alimentícia frente ao estímulo de tal vício. O tema abordado abre novas perspectivas para o tratamento da obesidade, como por exemplo, aplicar estratégias utilizadas para o tratamento de dependência química no tratamento da obesidade. Além disso, para prevenir a dependência de alimentos calóricos é necessário ter hábitos alimentares saudáveis e de preferência desde a infância.

*Texto elaborado pela Dra. Erika Santinoni, aluna bolsista do curso de Pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional – VP Consultoria Nutricional/ Divisão Ensino e Pesquisa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s