Baudelaire

Publicado: 25/06/2010 em Sem categoria
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Fonte: educaterra

Droga e os Paraísos Artificiais

C.Baudelaire (1821-1867)

Charles Baudelaire, poeta parisiense, morto em 1867, foi um dos primeiros dos grandes homens de letras do século XIX a discorrer, em ensaios muito bem escritos, sobre os efeitos das drogas que ingeriu. Chamou-as de paraísos artificiais, satisfações momentâneas que os homens buscavam para fugir da mediocridade existencial a que a grande maioria estava condenada, mesmo que o despertar daquele fugaz momento edênico tivesse horríveis conseqüências.

No círculo do haxixe

“Este senhor visível da natureza visível desejou criar o Paraíso pela farmácia…”

C. Baudelaire “Les Paradis artificiels”, 1858

Devemos ao poeta Charles Baudelaire o acerto do conjunto das suas intuições feitas a respeito dos efeitos gerais do haxixe e outros tóxicos. Tudo o que ele escreveu a respeito, faz quase cento e cinqüenta anos atrás, confirmou-se ao longo do tempo. Credita-se a ele ter escrito aquilo que pode entender-se como o mais profundo ensaio sobre a metafísica da droga: isto é, as motivações mais profundas que conduzem alguém ao caminho dos alucinógenos.

Freqüentador, juntamente com outros artistas e escritores, do pequeno círculo de Roger de Beauvoir, instalado no Hotel Pimodan em Paris desde 1845, onde inalavam haxixe, Baudelaire, posteriormente, relatou estas experiências numa monografia que tornou-se célebre: Paradis artificiels, “Os Paraísos artificiais”, composto pelos poemas De l´Ideál artificiel, le haschisch e Le poème da haschisch.

Atingidos pela graça

Na busca inútil de novas percepções

Na verdadeira descrição literária que ele faz sobre os efeitos delas, observa-se que recorre largamente às palavras associadas ao vocabulário religioso, senão beatífico, tais como “graça”, “gratificação”, “elevação”, “forças espirituais” e, até mesmo, “angélico”. Expressões essas que não estavam destituídas de sentido porque, segundo ele, o que cada um procura ao inalar ou aspirar drogas é atingir o Nirvana. Ainda que, recorrer a elas, seja um paraíso artificial e que no dia seguinte o faça padecer de tremedeiras chorosas e que grande parte da sua força de vontade desabe, o viciado termina por descobrir “uma fonte de alegrias mórbidas”. Neste sentido ele aparece tocando uma nota diferente daquele seguida bem antes dele por Thomas De Quincy, autor da crônica Confessions of an English Opium Eater, Confissões de um usuário de ópio, 1820, que explicava a busca daquele estupefaciente como um maneira de atingir algum tipo de racionalidade por vias não convencionais, esperando assim ativar o seu senso de harmonia, não detendo-se longamente noscorrosíveis efeitos físicos e psicológicos que se seguiam ao êxtase e aos tormentos que o seu uso provocava. O que interessa observar aqui é a insinuação de Baudelaire de que a busca pelas drogas atende a uma real compulsão humana em querer atingir algum tipo de éden, ainda que seja pela via farmacêutica e cobre um grande desalento.

Atrás do paraíso

Tal fato nos conduz a entender esta ascendente volúpia pelos estupefacientes na sociedade de hoje que tornou-se um verdadeiro flagelo social A isto soma-se uma visão, tipicamente moderna, de um mundo materialista e não-transcendente que ofuscou a antiga idéia de Deus. Há uma crescente simetria entre a decrescente perda de fé no paraíso religioso e ideológico, o vazio daí decorrente, e o geométrico salto neste tenebroso consumo. Aventa-se a hipótese de que apesar da acelerada “desmagização” do mundo, o desencantamento com a religião revelada, iniciada pela crítica do Iluminismo no século 18, não removeu-se do intimo do psiquismo humano a necessidade da crença num mundo sensorialmente idílico, encontrado anteriormente em todas as expressões religiosas conhecidas. A gratificação psicológica que a religião provoca estaria sendo substituída pelos efeitos deletérios das drogas.

O vazio existencial

O paraíso artificial torna-se um inferno real

A expansão das conquistas científicas, da tecnologia e da educação em massa, que reviraram o mundo de ponta a cabeça, afetaram de uma modo irreversível a visão tradicional oferecida pelas religiões da existência de uma vida pós-morte oferecida pelos sacerdotes de todas as fés. Os indivíduos ficaram, desde então, com uma sensação de vazio em seu interior. Para preencher tal vácuo, esvaziado da crença num paraíso existente no além, lançam mão da maconha, da poderosa cocaína e do proletário crak. E, em sua forma mais amena e literária, na sublimação zoroástrica, na consulta astrológica e no engodo da auto-ajuda.

Mas não tem sido só a substituição do paraíso religioso a principal razão da inclinação pelos tóxicos. O buraco negro deixado pelo vazio ideológico resultante do colapso do socialismo, nos antigos países do bloco soviético, também provocou o fenômeno da recorrência aos tóxicos.

A expansão para o leste

A queda do muro expandiu a droga para o leste

Não faz muito, num congresso em Budapeste, psiquiatras ocidentais foram cercados por seus colegas do leste que desejavam detalhadas informações sobre o tratamento de viciados. O problema dos viciados era praticamente desconhecido entre eles. Como o socialismo igualmente apresentava uma versão – ainda que secular, semi-policial e estagnante – de um mundo perfeito, seu desabamento, seguido do desaparelhamento dos mecanismos repressores, fez com que lá também parte da juventude mergulhasse na dependência dos alucinógenos. Rapidamente os países do leste, até então imunes, também começaram a ver formar-se os exércitos de dependentes e miseráveis escravos das drogas. Apesar disto, do problema da droga entrelaçar-se com a própria razão de ser da moderna sociedade capitalista, democrática, laica, consumista e anti-utópica, observa-se que dificilmente procura-se nela e na nossa composição psíquica e sociocultural a fonte do problema.

A fuga neurótica

As principais autoridades inclinam-se sempre a responsabilizar – como faz qualquer neurótico que nega-se a assumir a sua doença -, os malignos agentes externos pela drogação da juventude. A culpa, segundo eles, é dos traficantes malvados, da desmotivação e do desaparelhamento da polícia, ou até da incompetência e corrupção geral dos governos, impotentes, segundo eles, em reprimir a produção e o tráfico de drogas.

Freud, atendendo a inúmeros pacientes, observou que por variadas que fossem as origens dos seus sofrimentos e traumas, eles esforçavam-se em evitar expor direta e francamente o que os afligia. Utilizavam-se de um vocabulário simbólico e tortuoso, quase sempre de origem onírica, tratando de elidir de si mesmos e do analista, o real motivo das suas angústias. É o que faz no presente, em escala gigantesca, a sociedade atual. A droga é o paraíso artificial do mundo moderno, mesmo que todos saibam que, depois de um tempo, tudo vire num inferno.

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