Trabalho e dignidade humana

Publicado: 04/04/2010 em Reforma da Saúde Mental
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A escassez de material científico sobre o tema do desemprego e sua relação com os agravos à saúde mental é um indicativo preocupante de que é preciso olhar de modo mais integral o usuário do serviço de saúde.

O desemprego aqui vem como menos uma possibilidade de expressão do ser, de apropriação de si, de auto-realização, auto-gratificação, auto-valorização. Nas sociedades contemporâneas nem sempre o emprego é um trabalho que possibilite ao ser todas estas realizações mas a falta deste é, de certo modo, a negação concreta destas possibilidades.

Analisemos o ditado popular: “O trabalho dignifica o homem”. De que trabalho estamos falando? E de que homem estamos falando? Apenas para nos delimitarmos ao  campo da saúde mental, pensemos na pessoa portadora de sofrimento mental que repetidas vezes é eliminada nas vagas de emprego ou que as consegue por pouco tempo. Que (in)dignidade é esta? Oras, se o trabalho dignifica o homem, aquele que não consegue trabalho não consegue também dignificar-se? Seria isso? De que dignidade estamos falando?

A desigualdade que sustenta o sistema capitalista é fortificada com conceitos e crenças que separam e classificam as pessoas individualizando os fatores que podem levá-las ao sucesso (do ponto de vista capitalista) ou à falta deste. Pessoas  que fujam ao padrão de produtividade passam então a ser tratadas à margem do sistema  e do modus vivendus da sociedade.

Este mecanismo retroalimenta a incontrolabilidade do indivíduo frente às exigências do meio ao passo que este é cobrado como único ou primordial responsável por sua sorte ou desgraça capital, ao mesmo tempo em que se vê submetido às regras do jogo social em busca de seu “lugar no mundo”.

Oras, se o emprego é fonte de renda do trabalhador, temos que o desemprego é a ausência não só do trabalho mas também da renda. Renda esta necessária para subsistência do indivíduo, que, passando necessidades financeiras, pode ver sua saúde mental piorar ainda mais.  Maslow define como necessidades primordiais do homem a serem supridas para sua saúde: as necessidades básicas (alimentação, vestuário…), necessidades de segurança (sentir-se seguro em uma moradia…), necessidade de pertencer a um grupo e de ser amado  e respeitado, e necessidade de auto-realização. Sem fonte de renda como o cidadão poderá suprir sequer a primeira e mais básica das necessidades hierarquizadas por Maslow como indicador de saúde e realização?

Neste contexto surge a economia solidária como alternativa de geração de trabalho, renda e inclusão social que pode se dar através de cooperativas, associações, ou outras. O resgate do indivíduo marginalizado no sistema de produção tradicional, permitindo-lhe desenvolver-se a si e a  suas potencialidades é o caminho para a  saúde mental que, ao invés de individualizar a responsabilidade pelo locus social, socializa os benefícios da convivência cooperativa.

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comentários
  1. Rita Schultz disse:

    Querida, estudei muito as situações dos manicômios em nosso país e constatei uma triste realidade. Há sim falta de mão de obra especializada e o caminho é a inclusão social e o resgate do indivíduo marginalizado, dos quais você fala. As artes plásticas, como é o meu caso, e a literatura, às vezes, ajudaram bastante no meu estágio. Mas ainda temos muito a fazer! Lindo texto, de conscientização e sensibilidade.Beijos, querida.

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