Luta Antimanicomial

Publicado: 15/03/2010 em luta antimanicomial, Reforma da Saúde Mental
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Fonte: redetelma
O Ato Público Pelos 20 Anos da Luta Antimanicomial em Santos, realizado pela Câmara, , possibilitou uma das mais aprofundadas análises sobre um dos fatos mais marcantes na história da saúde pública em Santos. A intervenção na Casa de Saúde Anchieta, realizada pela Prefeitura em 3 de maio de 1989, continua tendo ampla repercussão e até hoje o modelo de atendimento à saúde mental adotado naquela época em Santos vem sendo utilizado em inúmeros municípios brasileiros.

“Nós, até hoje, estamos implantando essa política antimanicomial pelo país, a partir do modelo que a gente começou aqui em Santos. E talvez nem a cidade de Santos se dê conta disso”, afirmou Luiz Antonio Melhado, secretário de Administração na época e um dos membros da equipe que esteve à frente da intervenção no Anchieta. Já o psiquiatra Antônio Lancetti, que também fez parte da equipe interventora no hospício santista, destacou que o modelo dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs – em Santos conhecidos como NAPs), em substituição aos manicômios, fez escola e é motivo de estudo e referência para as novas gerações.

Segundo Lancetti, com a intervenção, Santos iniciou a quarta revolução psiquiátrica:“Até em lugares onde vocês nem imaginam, no Rio Grande do Sul, no Amazonas, no Acre, no Norte e no Nordeste, em pequenos municípios, há CAPs espalhados pelo Brasil inteiro. Em Aracajú (SE) tem CAP que adotou exatamente a metodologia de Santos. Por sua vez, Melhado, hoje consultor na área de segurança pública, o então interventor do Anchieta, Roberto Tykanori Kinoshita, “foi profético 20 anos atrás. Nós passamos uma mensagem para o Brasil inteiro: nós podemos”.

Ao relembrar os bastidores da intervenção, Telma de Souza, líder da bancada do PT no Legislativo santista e autora do pedido para a organização do ato público, disse que a cidade, da qual era então prefeita, bem como o seu governo, não seriam saudáveis se compactuassem com a situação de horror vivida pelos internos do Anchieta. “Nós avançamos na questão da saúde mental neste país, com novas leis e nova percepção. Acredito que estamos no caminho certo e precisamos acertar o passo, para continuar uma obra que, por razões diversas, ou foi interrompida ou não tem a pujança que um dia já teve”, afirmou.

Telma, que foi quem deu o sinal verde para a intervenção, elogiou a dedicação de toda a equipe que atuou no episódio, enfatizando a participação fundamental do seu então secretário de Saúde, David Capistrano Filho, no direcionamento das ações que seriam tomadas no município no campo da saúde mental dali em diante.

Afeto e respeito – Falando sobre como o modelo adotado em Santos baseou-se no respeito, na dignidade humana, no amor e no afeto, a psicóloga Fernanda Nicácio abordou a forma como a experência marcou profundamente a vida de todos que participaram dela: “Destaco essa possibilidade de um projeto coletivo transformar a realidade e de poder produzir uma capacidade afetiva muito singular entre todos aqueles que estavam naquele processo. Às vezes, no trabalho, sinto falta de intervenções mais difíceis ou complexas, ou também, mais singelas, como alguém para ler uma poesia para um usuário que não está be ou alguém para dizer: ´vamos lá dentro, na cozinha, fazer um brigadeiro´,”

Fernando Borgomoni, da Secretaria de Cultura à época da intervenção, discorreu sobre como os artistas se envolveram com a luta antimanicomial. “Em poucos momentos eu vi a arte significar libertação, de uma forma tão completa, de uma atividade humana tecida pela liberdade e a dignidade do homem. Amigos que tinham bandas de rock, grupos de teatro, de repente, todos estavam participando, fazendo parte de algo, num processo que foi riquíssimo”. Borgomoni defendeu a necessidade de perpetuar essa luta: “Existe um mecanismo perverso de solapamento da nossa memória, porque, se tira a memória, tira o orgulho, tira a capacidade de acreditarmos que se pode mudar alguma coisa”.

Telma considerou o ato de extrema importância e afirmou que o Legislativo cumpre o seu papel de estar envolvido em todos os aspectos da vida pública. O ato foi possível a partir das comissões permanentes de Saúde, presidida por Braz Antunes Matos (PPS), e de Cultura, presidida por Fábio Alexandre Nunes (PSB). Os vereadores Hugo Dupré (PMN), Adilson Jr. (PT) e Antônio Carlos Banha (PMDB) enviaram representantes. A deputada Maria Lúcia Prandi (PT) compareceu e o colega de bancada na Assembléia, Fausto Figueira, também do PT, enviou representante. O evento teve apoio do escritor e membro do Fórum de Cultura Flávio Amoreira. Além dos presentes à mesa, foram homenageados Domingos Stamato (póstuma), Sandra Lia Chioro dos Reis e Roberto Tykanori Kinoshita.

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