13 de agosto de 2008, Paloma entrevista Carrano

Publicado: 13/02/2010 em Reforma da Saúde Mental
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Extraído na íntegra de Departamento do Meio Circulante

Carrano 1957-2008

“MALDITO” E CENSURADO

O BRASIL é UMA POTÊNCIA SOLIDÁRIA

Austregésilo Carrano é escritor, ator, dramaturgo e diretor de teatro. Foi ele quem escreveu e viveu a história contada no livro o “O Canto dos Malditos”, obra que deu origem ao filme o Bicho de Sete Cabeças. O autor curitibano tornou-se um militante da Luta Anti-Manicomial e dedica-se ao estabelecimento e afirmação da rede nacional de trabalhos substitutivos aos hospitais psiquiátricos. Em entrevista Carrano falou dos desafios da luta, da mídia e sobre participação juvenil.

PK – O “Bicho” ganhou uma série de prêmios mas O Canto dos Malditos lhe rendeu algumas polêmicas no mínimo desagradáveis. Em protesto a censura, você até já teve a ousadia de participar de uma tarde de “não” – autógrafos do livro. De vítima passou a réu e foi condenado à retirar o livro de circulação. Essa passagem não foi tão divulgada, apesar da repercussão do filme. Fale sobre isso.

Carrano –O livro foi lançado em março de 1990 pela Universidade Federal do Paraná, no começo de abril foi retirado de todas as livrarias de Curitiba e de lá pra cá rola essa perseguição. Volta e meia, os donos da loucura, que são os psiquiatras que fizeram fortunas encima de confinamento humano e tortura, vêm perseguindo a obra O Canto dos Malditos. O livro teve a comercialização proibida de 2002 a 2004. No texto eu cito nomes de médicos e hospitais por onde eu servi de cobaia durante três anos e meio e cito o nome dessas entidades, é por isso Eu fui retirado das livrarias e fui obrigado judicialmente a mudar o nome dessas instituições e dos médicos que foram meus algozes. A que está circulando é uma nova edição com nomes semelhantes.

PK- Depois de sua trajetória como paciente e vítima de tortura em instituições psiquiátricas você se transformou num militante da luta anti-manicomial. Dê um panorama do movimento. Conte um pouco da história e pontue alguns dos aspectos mais críticos.

Carrano – Movimento da Luta Antimanicomial já é um movimento de mais de 60 anos. Era conhecido como anti-psiquiatria, não é contra a psiquiatria pura, honesta, e sim contra caminhos como o confinamento, a medicação ministrada de modo perverso, o isolamento de pessoas com sofrimento mental em casas especializadas em loucura, tortura e morte. Não concordamos com aplicação de eletro-choque, e nem com a eletro-convulso-terapia. Em algumas instituições esse procedimento é chamado de “eletro-choque humanitário”, porque hoje em dia se consegue através de uma medicação muito forte, um relaxamento do corpo onde a convulsão é amenizada, mas a voltagem continua a mesma. Então me engana que eu gosto. Podem aparecer várias reações, morte na hora ou anos depois da aplicação, queima de neurônios, lesões cerebrais etc. Batalhamos contra a imposição de certos tratamentos e certas drogas, o que também envolve os interesses dos laboratórios em manter toda essa podridão que corre dentro do sistema manicomial brasileiro e envolve grandes fortunas. Atualmente a terceira maior despesa do SUS vai para os hospícios, para confinar e drogar pessoas. A primeira é com problemas cardíacos, a segunda com problemas respiratórios, e a terceira com hospitais psiquiátricos. Hoje é a terceira maior despesa do SUS e se gasta em torno de 600 a 700 milhoes de reais por ano pra esses donos de hospícios fazerem turnê na Europa e terem suas mansões e seus carrões. Essa já é uma pratica que vai passando de família pra família, de pai para filho, virou um negócio, são empresas, um hospital psiquiátrico é uma empresa familiar. Hoje, das cerca de 247 instituições, 90% são particulares. Os dados são do Ministério da Saúde.

PK- A criação da rede nacional de trabalhos substitutivos aos hospitais psiquiátricos é ao mesmo tempo uma conquista e um desafio da Luta Anti-manicomial. Como funcionam os Centros de Atenção Psico-social e o que são os lares abrigados?

Carrano – O movimento vem montando a rede nacional de trabalhos substitutivos aos hospitais psiquiátricos, os CAPS (Centros de Atenção Psico-sociais). São casas alugadas, a pessoa passa o dia e é acompanhada por uma equipe de multi-profissionais, entre eles o psicólogo, o assistente social, o psiquiatra. À noite a pessoa volta para o convívio familiar. Se não for possível resolver o caso no CAPS e houver a necessidade de internação, a gente tem ligações com hospitais gerais onde a pessoa pode ficar internada no surto-crise, que é quando está colocando em risco a sua própria vida e a vida de terceiros. Esse é o único caso que de repente exige uma internação, mas que ela seja feita no hospital geral. Saiu dessa crise, geralmente em sete dias, se a equipe que trabalha dentro desse hospital geral achar que esse paciente deva continuar em tratamento ele vai continuar nos CAPS. Os lares abrigados que são pra essa gama imensa que já virou morador dentro dessas instituições, eles moram lá eles já são lucro certo pra instituição, por causa da mensalidade que o SUS paga pra manter essa pessoa lá dentro, só que essa pessoa já não consome mais nada, há não ser aquela lavagem que dão pra ele comer. O paciente psiquiátrico, além de prisioneiro físico ele também é um prisioneiro químico. Daí a importância dos lares abrigados, que são casas terapêuticas e, de acordo com o espaço físico moram de cinco a dez pacientes, essas casas são acompanhadas por essa equipe de multi-profissionais. A convivência é possível, a gente ta provando isso há mais de 15 anos.

PK – Você utiliza o livro e o filme como instrumentos de micro-política. São duas produções que contribuem para a ampliação do debate sobre drogas, loucura, preconceito, ou seja, temas polêmicos e de relevância social que nem sempre gozam do devido destaque pela Mídia de modo geral. Como você enxerga isso?

Carrano – Assuntos polêmicos merecem toda a hora serem cutucados, serem explorados, qualquer iniciativa é válida no sentido de abordar essas questões. A questão da loucura, do preconceito, da exclusão social. São temas que enquanto existirem serão material para que se façam outros trabalhos artísticos. Tem que haver uma mudança, um xó manicômio, a extinção dos manicômios, para isso o bicho teve o seu papel, mas nada impede que venham outros trabalhos a falar do mesmo assunto e que atinjam também a mesma importância. Eu penso que foi um começo. Até uma frase meio romântica, meio aleatória, mas muitas vezes o manicômio está dentro da nossa família, o manicômio está dentro da nossa sociedade, dentro das nossas escolas. O manicômio as vezes está aqui fora também e não só dentro da instituição. Então é importante a gente ficar ligado, a mídia também pode ser um manicômio, que só nos joga aquilo que tem chance de vender.

PK- Como você avalia a participação dos jovens na busca e construção de soluções para os problemas brasileiros?

Carrano- Percebo que os jovens se envolvem em vários movimentos e que por mais diferenciados, eles procuram a mesma coisa, procuram a qualidade de vida. Aceitar as diferenças, lidar com elas, isso é possível, afinal nós somos uma das sociedades mais criativas do mundo. Gosto da idéia de valorizar a nossa diversidade cultural. O Brasil tem todas as condições para se tornar uma potencia, não bélica, mas uma potencia solidária.Eu conheço muitos jovens que estão estudando, que estão pesquisando, que estão em movimentos sociais, rejeitando coisas enlatadas. O jovem não está completamente alienado, tem uma galerinha que está batalhando. Falar que o jovem é alienado é uma frase babaca, preconceituosa.

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