Psiquiatria, por Luis Bethancourt

Publicado: 06/02/2010 em Reforma da Saúde Mental
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Fonte: Saúde Mental e Harmonização

Gostaria de começar este artigo pedindo, pelo amor de Deus, que parem de colocar no médico psiquiatra a culpa pelas dores do mundo! Porque? Ando lendo os blogs dos outros. A grande maioria acredita que os psiquiatras inventam doenças e classificações para podermos rotular este ou aquele indivíduo, ou nos utilizar destes para condenar ao confinamento eterno pessoas portadoras de algum transtorno mental roubando-lhes a possibilidade de serem felizes e inseridos na sociedade. Oras, também concordo que as coisas estão indo além do limite, mas não jogo a culpa em ninguém. Recentemente recebi um e-mail de uma empresa de pesquisas questionando-me se conhecia uma determinada patologia a qual nunca tinha ouvido ou lido antes. Procurei na internet a referida e constatei que a mesma existe e até tem um remédio específico para ela. Exemplos como a síndrome do desejo sexual hipoativo, a síndrome da excitação sexual persistente, a urticária aquagênica, a síndrome hipertimésica, que são rotulações mais recentes, nada mais são do que condições observadas e já descritas na Psicopatologia fenomenológica e nas classificações do CID-10 e do DSM-IV-TR sob outros nomes. Quem teve um bom curso destes irá se lembrar bem. Interessante notar que utilizam-se apenas de um sintoma para já transformá-lo numa síndrome (conjunto de sinais e sintomas). Por vezes também tenho a fantasia que as indústrias farmacêuticas descobrem uma substância e depois vão atrás de saber qual seria a sua aplicação. Por isso fico atento às classificações das patologias publicadas pelas diversas associações nacionais e internacionais (OMS, APA, OPAS, só para citar alguns) e aos avanços mais sérios das pesquisas clínicas nacionais e internacionais sobre novos psicofármacos.

Das “patologias” citadas acima, uma dela já tem até um remédio que nunca antes tinha ouvido falar, a flibanserin para o tratamento do desejo sexual hipoativo. Esta substância está na Fase III de pesquisa clínica, inclusive no Brasil.

Mas o que me fez escrever este artigo é para dizer que o psiquiatra não tem nada a haver com estas rotulações, que concordo, muitas vezes são humilhantes. Por vezes é a própria mídia quem faz isso. Ainda me lembro das aulas de Anatomia Patológica com o Prof. Dr. Jorge Michalany, na Escola Paulista de Medicina, quando se empolgava e discutia raivosamente os termos utilizados pelos jornalistas para descrever uma ou outra condição médica. Ele repreendía quando perguntava se era infarto ou enfarte e nós não sabíamos a resposta. Assim fazia com muitas outras expressões utilizadas pela mídia da época. Era alguém que impunha respeito pela sua sabedoria.

Acredito que se a condição em que se encontram os serviços e políticas de Saúde Mental estão da maneira como estão, não é culpa apenas do psiquiatra e sim culpa de TODOS, por palavra, obra ou omissão. E já que cada um pegou a sua parte, agora vamos TODOStrabalhar por um futuro melhor!

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comentários
  1. A culpa deve ser do gato.

    Num dos depoimentos acima diz que nenhum médico recomeda medicamentos sem autorizaçao da família. Não só recomendam como aplica. Aconteceu comigo.
    O médico sabia que a minha filha era alérgica a haloperidol e lhe aplicou 10mg de haldol+300ml de amplictil+4mg de biperideno antes de fazer uma anamnese. E ela estava totalmente tranquila, nem era pra ter ficado internada, já que estas clínicas só podem internar pacientes quando chegam aí, em crise.
    Me desculpem, mas a intenção destas Clínica é manter por mais tempo, possível, o paciente cujo objetivo é lucrativo.

    É só ver nas pesquisas.

    Se assim não fosse, por que não liberam antes de 30 a 45 dias e ainda proibem os familiares de visitá-los nos primeiros dias de internação.

    Minha filha teve sua vida ceifada por asfixia medicamentosa.
    O seu pulmão esquerdo estava murcho.

    Toda profissão tem profissionais e profissionais.

    Muitos deles pensam que são deuses!

    Abaixo o ato médico!!!

    CASO ANA CAROLINA CORDOVIL HEIDERICH SILVA

    Sua mãe, Nercinda

    Obrigada Zulmira Fontes e Rosimar,
    Ao Luíz Gustavo, sinto muito,pois sei que vocês também não tem vós. Por isto a frase acima: “Eles pensam que são deuses”.

    13/01/2011

  2. Não há lugar mais triste!!!!

    Este é um dos temas que mais mexe comigo desde o dia em que encontrei minha filha se vida. E tenho certeza que foi por drogadições.

    Se arranca lágrimas dos olhos de quem não tem nenhum laço familiar ao deparar com tamanho sofrimento, imagine de quem perdeu um pedaço de si mesma dentro de uma dessas chamadas, clínicas de repouso, um dos lugares mais humilhantes que um ser humano pode experimenta ao ser ali, internado.
    Um lugar de isolamento, dor, tristeza, saudade de casa, de qualquer lugar, até mesmo da rua que e, incomparavelmente, melhor.
    Quando será que vamos nos ver livres destes cárceres privados, onde os internos não tem o direito de falar com familiares, nem por telefone?
    Quantos …ainda precisarão morrer … pra que este sistema, criminal, seja banido do nosso Planeta?
    E eu, sinceramente! Irei chorar até que a morte, também me alcance!!!
    Nercinda

  3. Zulmira, este blog é uma iniciativa dos profissionais, familiares e usuários do serviço de saúde mental justamente para que todos tenhamos como compartilhar nossas idéias. O Ministério da Saúde preconiza que cada vez mais CAPS sejam abertos e a estrutura dos CAPS preconiza o atendimento integral ao usuário. É de fundamental importância o trabalho dos psiquiatras, bem como dos demais técnicos da saúde. Como pode ver, há sim muitos canais de expressão para todos nós. Que bom, né? Abç, Rosemar.

  4. zulmira fontes disse:

    Muito obgrigada Prota!
    É muito difícil darem créditos a uma usuária de saúde mental.Mas continuo reivindicado-os!
    SAUDAÇOES ANTIMANICOMIAIS
    ZUZU FONTES

  5. Zulmira, muito importante tua iniciativa de escrever esta carta reivindicatória, muito pertinente tua reflexão. Há hospitais psiquiátricos que ainda hoje em dia não permitem visitas nos primeiros dias de internação, o que deveria ser (e até deve ser) inconstitucional. Saudações, Rosemar Prota.

  6. zulmira fontes disse:

    Meu nome é Zulmira Fontes , sou usuária de saúde mental, e sofri horrores dentro de um hospital psiquiátrico chamado Santa Isabel em Cachoeiro de Itapemirim, ES.
    Fui em quem redigi a referente carta e solicito em caráter de urgência este lei.
    “No entanto, não generalizo psiquiatras, e outros funcionários da saúde mental, mas sim,existe em uma grande maioria, a” “fábrica de doidos”: para ser um basta ter uma internação e o sistema se encarrega do resto.
    É claro que como leiga, isso precisa ser debatida, estudada, conversada, acordada e é por isso que estou no movimento luta antimanicomial. Para que outros não sofram o mesmo que sofri dentro desta instituição
    Ofereço para trocarmos idéias, aperfeiçoarmos a carta e crescer com isso.
    Conto com sua colaboração e muito obrigado pelo reconhecimento que e justa a reivindicação.
    Quanto aos familiares é muito fácil entulhar num hospital os familiares, mas isso não é bem assim… Precisamos estudar caso a caso, e quiçá a família é que não tem que ser tratada?

    Aptoveito para postar na íntegra esta JUSTA reivindicaçao:

    Carta aberta ao congresso nacional,Às organizações, associações, autoridades de saúde, profissionais de saúde mental, legisladores e juristas.
    C/C Organizações das nações Unidas
    Pelos usuários de sistema de saúde mental terem direito a acompanhante enquanto internados.

    Senhores,
    Reivindicamos o acompanhamento na internação dos usuários de saúde mental por parente próximo como obrigatório nas instituições psiquiátricas brasileiras.
    …..Visto que, o usuário de saúde mental é incapaz.perante a lei e as instituições psiquiátricas são ineficazes em salvaguardar sua dignidade pessoal visto que o usuário de saúde mental depende de apoio da família para sua melhoria e bem estar; e ainda que a internação solitária gera maior incapacidade social causado pelos descasos do quadro clínico e até da família Verificando também que inúmeras drogadições, lobotomias e eletro choques são efetuados em clínicas de saúde mental publicas ou particulares,remédios fortes são prescritos sem o conhecimento e consentimento da família, podemos causar sérios danos ao SNC e dependência química.
    Sabemos, que por serem incapazes de lutar pela sua vida e direitos,pelas limitações inerentes aos mesmos,e métodos atuais de internação não possuem até então caráter preventivo de recaídas. Se este paciente, é incapaz pela ciência, porque deixá-los a mercê de médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagens, distanciando-o de sua realidade e dificultando sua recuperação?
    A drogadiçao excessiva é motivo de maior despesa no orçamento do SUS e conseqüente volta e permanência do mesmo dentro dos hospitais: quanto maior drogadiçao o usuário for exposto, mais demorará para sua recuperação e reinserção social e familiar. Para livrar-nos do sistema crônico de geração de pacientes psiquiátricos pelas clinicas e laboratórios, devido aos vícios de fármacos contínuos que causam dependência física e psíquica
    Ora, são incapacitados, perante a lei, mesmo temporariamente,têm o direito humano de permanecerem acompanhados de familiares, pais,irmãos esposas ou filhos,até a sua alta!
    Que seja instituído por lei o direito de um acompanhante quando se der a internação de um usuário de saúde mental em qualquer leito de instituição psiquiátrica brasileira.Que seja pautada na lei a dignidade humana de todos e inclusive do usuário de saúde mental, aprovando e assegurando a permanência de um acompanhante ao paciente, assegurando-lhes o equilíbrio, e a segurança pessoal na insanidade,como cidadãos que são!
    Senhores,solicitamos em caráter de urgência esta lei!

    ATENCIOSAMENTE,
    Zulmira Guimarães Fontes
    Usuária de saúde mental- ES

  7. Luís e Gustavo

    Vocês sabem o quanto admiro o trabalho de vocês mas não entendi o tom de vocês. Parece que estamos de lados diferentes quando na verdade estamos do mesmo lado: o do usuário do serviço de saúde mental.
    Lamento profundamente o tratamento que os usuários do serviço e os técnicos não médicos têm recebido de alguns médicos que simplesmente nos deixam falando sozinhos e viram as costas quando queremos conversar sobre o tratamento de algum paciente. Já presenciei vários casos de internação totalmente desnecessária e sem discussão interdisciplinar, pois o médico vira as costas e sai andando, como já disse. E acompanhei tb casos de pacientes que estavam em crise de saude mental e o psiquiatra manda para casa tomar doril. Lamentável este Ato Médico.

    Abçs

    Rose

  8. Luis, faço coro ao seu desabafo!

    Recebi um email solicitando uma lei (justa) que permitiria aos pacientes psiquiátricos internados terem um acompanhante.

    Justa, mas inocente, visto que a maior parte das internações mostra o esgotamento dos cuidadores, que literalmente pedem “férias” de seus filhos, maridos, pais, …

    Mas na verdade o que mais me irritou foi a colocação de que nós, psiquiatras, aliados aos enfermeiros e suas equipes, utilizamos doses altas de medicações que “viciam” os pacientes… Dê uma olhada:

    “Verificando também que inúmeras drogadições, lobotomias e eletro choques são efetuados em clínicas de saúde mental publicas ou particulares,remédios fortes são prescritos sem o conhecimento e consentimento da família, podemos causar sérios danos ao SNC e dependência química.
    Sabemos, que por serem incapazes de lutar pela sua vida e direitos,pelas limitações inerentes aos mesmos,e métodos atuais de internação não possuem até então caráter preventivo de recaídas. Se este paciente, é incapaz pela ciência, porque deixá-los a mercê de médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagens, distanciando-o de sua realidade e dificultando sua recuperação?
    A drogadiçao excessiva é motivo de maior despesa no orçamento do SUS e conseqüente volta e permanência do mesmo dentro dos hospitais: quanto maior drogadiçao o usuário for exposto, mais demorará para sua recuperação e reinserção social e familiar. Para livrar-nos do sistema crônico de geração de pacientes psiquiátricos pelas clinicas e laboratórios, devido aos vícios de fármacos contínuos que causam dependência física e psíquica”

    Dá pra acreditar? Espero que nunca precisem de nossas “drogas” para aliviarem o sofrimento de suas almas…

    Forte abraço

    Gustavo

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