Encontros e Desencontros, por Luis Bethancourt

Publicado: 17/01/2010 em Reforma da Saúde Mental
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Extraído na íntegra de Saúde Mental e Harmonização

Recentemente adquiri mais um livro (já não tenho mais espaço nas estantes, mas não consigo parar de comprar) sobre Neurociências (“Neurociências para o Clínico de Saúde Mental”, de Steven R. Pliszka). Neste, logo no primeiro capítulo há um resumo duro e cruo sobre a história da Psiquiatria. Aos poucos vou entendendo a antipatia que os participantes dos movimentos antimanicomiais têm da Psiquiatria e dos psiquiatras. Lendo isso eu também fiquei envergonhado do passado que tivemos. Mas se olharmos para a civilização como um todo já houve outros absurdos sendo difundidos pelos seus participante e acreditando estarem fazendo o bem, ou a coisa certa, sob o prisma das pseudociências ou outros pensamentos correntes da época.

Para vocês entenderem, eis aqui um breve resumo sobre o assunto.

Revendo a história da Psiquaitria relata-se que durante centenas de anos, aqueles que padeciam de algum transtorno mental recebiam cuidados em asilos, onde muitos eram tratados com brutalidade. NoSt. Mary of Bethlehem Hospital, em Londres do século XIII, os pacientes eram, com freqüência, apresentados para o entretenimento do público. Entretanto, durante os século XVII e XVIII, houve o movimento para prestar cuidados mais humanos para as pessoas nos hospitais. O mais notável desses foi o movimento deTerapia Moral iniciado por Phillipe Pinel, que em 1795 ordenou que fossem tiradas as correntes dos doentes mentais internados no hospital parisiense de Salpêtrière. Em 1830, o médico britânico John Conolly começou um movimento para abolir as cotenções mecânicas dos pacientes; em 1841 limitar a utilização das contenções mecânicas tornou-se a política oficial da Association of Medical Officers of Hospitals for the Insane (atualmente Royal College of Psychiatry).

Na Alemanha, Johann Reil, publicou as Rhapsodies about the Application of Psychotherapy to Mental Disturbances (1803), com ênfase em fatores psicológicos, enquanto que em 1845, Wilhelm Griesinger, escrevia que as doenças mentais eram doenças do cérebro. A descoberta de Paul Broca e de Carl Wernieck de lesões cerebrais específicas, que causavam déficits de fala e linguagem, reforçava a visão de que o comportamento perturbado poderia estar relacionado a disfunções cerebrais. Era o nascimento da Psiquiatria Biológica.

Entretanto, haviam outras tendências na Psiquiatria Biológica que não eram tão positivas. No final do século XIX, os psiquiatras francesesBénédict-Augustin MorelValentim Magnan propuseram aTeoria da Degeneração. Tal teoria sustentava que todas  doenças mentais eram genéticas e que, com freqüência, pioravam de uma geração para a outra. Essa teoria foi a justificativa para a esterilização disseminada de pacientes deficientes e doentes mentais no final do século XIX e começo do XX. Cesare Lombroso, o pai da Criminologia, tinha uma visão muito pessimista da rehabilitação dos criminosos. Tal debate levou a Teoria da Degeneração gerar oMovimento da Eugenia já no início do século XX.

Kraepelin criou o Departamento de Genealogia e Demografia noInstituto Kaiser Guilherme de Psiquiatria em Munique. O chefe do departamento, Ernest Rüdin, assumiu o instituto após a morte de Kraepelin em 1926 e foi o autor da “Lei para prevenir filhos hereditariamente doentes” promulgada pelos nazistas em 1933. Isto levou centenas de milhares de pessoas com deficiências físicas ou doenças mentais a serem esterilizadas à força e, mais tarde, assassinadas no Holocausto. Nos Estados Unidos, a Eugenia ganhou algum espaço com a esterilização à força sendo praticada de forma recorrente em instituições para deficientes mentais ou doentes mentais. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando os crimes dos nazistas foram expostos, o movimento de Eugenia foi justamente abandonado.

A implicação é que qualquer estudo do cérebro a respeito do comportamento humano inevitavelmente colocará a humanidade em uma “descida escorregadia” que leva ao genocídio. A intenção deHitler de erradicar os judeus e outros indivíduos que julgava inferiores era uma política deliberada para a qual a pseudociência daEugenia não era um pré-requisito necessário. Além disso, a Eugeniae a Teoria da Degeneração não eram sustentáveis nem sequer pela ciência da época. Foi o abandono do método científico que permitiu que tais movimentos se disseminassem.

Uma outra barbaridade foi o fato de Burrhus Frederic Skinner, ter reforçado a visão de autoritarismo, como eram vistos os professionais de Saúde Mental na época, com duas de suas publicações: Beyond Freedom and DignityWalden Two, nos quais afirmava que o livre arbítrio não existia e que os seres humanos eram melhor governados sendo condicionados para produzirem comportamentos pró-sociais.

No período de 1940 – 1970, muitos psicanalistas americanos começaram a afirmar que todas as doenças mentais, incluindo a esquizofrenia e o transtorno bipolar, eram causados por conflitos psicológicos que podiam ser amenizados por meio da psicoterapia psicanalítica. Bruno Bettelheim teorizava que o transtorno autista era causado pela rejeição parental e que somente a parentectomiapoderia levar à cura.

Aqueles que defendiam o conceito de que as doenças mentais têm causas estritamente “ambientais” ou “psicológicas” sentem com freqüência que estão num patamar moral superior – defendendo o paciente contra uma teoria biológica determinista. Em geral não conseguem ver que suas próprias teorias da doença mental, na ausência de provas, não se sustenta e culpam os pais e as famílias pelo problema de uma criança e, assim, causam dor e sofrimentos enormes.

Uma geração de psiquiatras teve ensinamentos absurdos. A Psiquiatria tornou-se divorciada da Medicina e o conhecimento médico dos psiquiatras declinou. Assim como, nem todos os indivíduos expostos a fatores estressantes desenvolvem doença mental, e duas pessoas expostas ao mesmo trauma desenvolvem doenças muito diferentes.

Hoje tudo isso mudou. A Psiquiatria agora desenvolve pesquisas com um rigor científico maior e baseado em evidências. Voltamos a fazer ciência. É um longo caminho para a reintegração, mas estamos caminhando com esse objetivo.

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comentários
  1. Muito interessante este documentário (livro)…Espero poder ler brevemente sobre estes assuntos de “forma impressa”, pois por enquanto só pesquiso pela internet… Mas estou gostando do que tenho encontrado, tem muita coisa boa escrita e com bases e fontes… Que o diga o seu texto, que está excelente…

    Abraços!!!

    Davidacoutinho

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