Dica de Leitura

Publicado: 29/12/2009 em Reforma da Saúde Mental
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consciência

Poesia e psicoterapia

Ana Maria Loffredo, A CARA E O ROSTO. ENSAIO SOBRE GESTALT TERAPIA. São Paulo, Ed. Escuta, 1994.

no espaço terapêutico, cujos limites se desenham através dos pressupostos que o sustentam, recorta-se uma espécie de moldura. Esta será depositária de conteúdos, imprevisíveis, mutantes que, simultânea e paradoxalmente, testam sua eficácia como promotora de sua possibilidade. Pois que o quadro, prenhe de imaginário, contido na necessária, inevitável e essencial moldura, sempre a transcende.

Foi então que meu interesse convergiu para o método através do qual se operacionaliza o trabalho terapêutico, método que procura as condições para que a especificidade criativa desse espaço possa se realizar.

Ora, é esse um começo mais que perfeito para um texto que pretende chegar ao poético partindo do poético, pois não há poesia senão na órbita do indeterminado e da imersão do sujeito no objeto e deste naquele. A questão aberta no livro — a que texto esse pré-texto e contexto levou a escritora — também era a minha pergunta ao começar a leitura.

…Como escreveu Leyla Perrone-Moisés, escritora que também pensa a poesia:

a linguagem não é só meio de sedução; é o próprio lugar da sedução. Nela o processo de sedução tem seu começo, meio e fim. As línguas, estão carregadas de amamos, de filtros amatórios, que não dependem nem mesmo de uma intenção sedutora do emissor (…). Afinal, o próprio das palavras é desviar-nos do caminho reto do sentido. Supõe-se que o objetivo da fala seja dizer o mundo e agir sobre ele. Mas, se prestarmos ouvidos às palavras, elas mesmas — isoladas ou reunidas em blocos que por si só não constituem uma significação -, encantamo-nos, distraímo-nos, e não chegamos a nada de prático. O extremo desse desvio (ou dessa sedução) chama-se poesia.

Ora, escreve Ana Loffredo, “ao me inscrever no vivido da palavra que me vem de presente, no presente, sem pedir licença, sigo o caminho do poema. Não posso saber se faço ou não, nesse caso, uni bom poema…” (Pode-se perguntar, quem sabe? Nem mesmo o melhor dos poetas sabe). E o texto continua:

desvencilhada da questão ética-estética do bom-mal, feio-bonito, posso me debruçar com os cotovelos na janela da experiência poética sem compromisso com a boa criação, mas perseguindo regras — caso existam — da criação.

não dizia Paz que a poesia pode estar em qualquer lugar, que não se restringe ao poema, embora nele se condense na forma mais plena? Que nenhuma situação nem ninguém, tem, a priori, a propriedade da experiência poética? Que a poesia, de certa forma, está disponível para qualquer um que tenha condições de, a ela, se dispor? (…) Descobri que eu já tinha chegado a algum lugar, que era meu ponto de partida e não, eventualmente, meu ponto de chegada.

Há que se concordar com a autora, no sentido em que o círculo do mesmo se impõe à sua reflexão. No entanto, como pensar a poesia como o já dito e explicitado no princípio quando para a própria autora, neste texto em particular, é um não-saber que move o poeta?

É porque há esse indeterminado que todo o terceiro tópico do capítulo 2 se justifica. Pode-se ler aí: “ao ler O. Paz, parecia-me reconhecer, na sua vivida apresentação da criação poética, algo aparentado com o que eu vivia no processo terapêutico… estava ali algo obscuro, porém envolvente” — obscuridade da qual a autrora procurou se aproximar não só por Paz, mas também por Barthes, Bachelard, João Cabral, Leminsky, Valery.

E é da conjunção de todos eles que lhe surge ser o poético uma experiência rigorosa ligada a um projeto de lucidez, uma turbulência de sentidos, que se faz presente como atrevimento. E, finalmente, uma experiência do abandono que instaura a possibilidade do imprevisível.

Ora, para polarizar discurso neurótico e discurso poético, como “A Cara e o Rosto” propõe, caberia desenvolver, pela via dessas poéticas escolhidas, a tematização do tornar visível o invisível, operação subjacente a todo estado poético e que só se realiza no encontro do objeto sensível que é o poema com o leitor que o consagra pela percepção. A obra que aspira ser poética precisa induzir no leitor o que Valery chama de estado poético, um modo de ser da subjetividade que é suscitado pelo ser do objeto, atualizando a intenção que o anima.

Mikel Duffrene, um dos grandes contemporâneos de índole fenomenológica, pensou sobre o poeta e o poético. E sua reflexão, como a de Bachelard e de todos os poetas aos quais Ana Loffredo se expos, é fulminante: Ele diz:

habitar poeticamente o mundo (como queria Hõlderlin com a poesia e como pretendeu Merleau-Ponty com a filosofia) é experimentar uma situação originária que não se resolve num ato como os que a necessidade ou o hábito suscitam, mas que se quer dizer.

E, conclui,

nenhuma disposição conceitual poderá traduzir esse sentimento fundamental do mundo, porque todo conceito está voltado à inteligência dos objetos. Somente a linguagem poética pode exprimi-lo. O poetizável e, mais geralmente, o que é passível de arte, é o objeto cujos contornos se esfumam, ou melhor, cuja significação se ilimita, e que se torna figura ou centro de um mundo.

Esse sentimento é o da união do homem com o mundo, união da qual fala a linguagem propriamente poética que se desdobra em mito, que se organiza em cosmogonia ou em teogonia. São as potências e os deuses que a palavra poética evoca, porque é do poeta moderno remontar às origens da linguagem, aquém da prosa, para facultar a emergência das imagens primordiais, àqueles que não possuem a clareza e a univocidade da coisa sabida em si mesma, embora já sejam percebidas.

São imagens que formam a primeira repercussão do mundo no homem. E é do poeta libertar essas imagens fixando as nas palavras que solicitam, abrir por essa via um mundo onde o leitor, seu outro, possa, por sua vez, penetrar. Experiência da intersubjetividade é concretamente o que realiza a experiência poética, como experiência estética.

Ou seja, se os poetas são sedutores, como diz Leyla Perrone-Moisés, é porque foram vítimas de uma sedução primeira, exercida pela própria linguagem. Porém, é pela via desviante da poesia que o teórico encontrará junto ao poeta matéria-prima para pensar um encaminhamento para a tensão sujeito-objeto, para a questão da intersubjetividade que, essencialmente, é a questão deste livro tenso, fundado que é na experiência clínica-terapêutica da autora e na sua interrogação.

Se a experiência poética é uma manifestação da alteridade constitutiva do humano é porque ela surge concretamente pela palavra que é o meio de que o homem dispõe para fazer-se outro. Ao transformar-se em imagem poética, pensa O. Paz, a palavra converte o eu do diálogo (cada um fala consigo mesmo ao falar com os outros) em tu do monólogo (não sou eu que ouço, mas sim o outro que escuta aquilo que diz a si mesmo), reconciliando pluralidade e identidade, sujeito e objeto.

Nessa medida, pela “via noturna do homem poético” (Bachelard), caminho das metáforas e das imagens, nem sempre reto, Ana Loffredo certamente teria encontrado mais facilmente o horizonte que tanto procura e que vislumbrou, afinal, em sua conclusão do livro. Pela via do poético, via da promiscuidade aderida ao verbo, da sedução, do devaneio, da androginia do originário, a autora teria encontrado a força necessária para cumprir seu projeto que é, em princípio, também filosófico, isto é, desfazer mal-entendidos sem se ater ao discurso clarificado, isento de frouxidão e ambigüidade, pois como dissera Bachelard:

o poeta é o guia natural do metafísico que quer compreender todas as potências de ligações instantâneas, o ímpeto do sacrifício, sem se deixar dividir pela grosseira dualidade filosófica de sujeito e objeto, sem se deixar deter pelo dualismo do egoísmo e do dever.

João A. Frayze-Pereira

Instituto de Psicologia — USP

Fonte:

Formato Documento Eletrônico (ISO)
FRAYZE-PEREIRA, João A. Poesia e psicoterapia. Psicol. USP. [online]. 1994, vol.5, no.1-2 [citado 29 Dezembro 2009], p.341-348. Disponível na World Wide Web: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-51771994000100022&lng=pt&nrm=iso&gt;. ISSN 1678-5177.
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