Por uma cultura sanitária de síntese

Publicado: 12/12/2009 em Reforma da Saúde Mental
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Higéia

Duas culturas sanitárias bem antigas convivem entre nós: a da PREVENÇÃO e a da REPARAÇÃO (ou cura). Já foram simbolizadas pelo semideus grego da medicina, ESCULÁPIO e suas filhas HIGÉIA e PANACÉIA.

Vejamos as vicissitudes da vida das duas irmãs, do século XIX aos tempos atuais: apogeu e perda de prestígio da saúde pública inglesa e da medicina social (ou polícia médica) francesa; o vertiginoso fortalecimento contemporâneo da cultura sanitária da reparação (transplantes imunobiológicos, cirurgias com laser, engenharia genética aplicada a medicina), novos fármacos. Panacéia rouba de Higéia a mortalidade materno-infantil.

Mas Panacéia não cometeu,contra sua irmã Higéia,sororicidio. A tarefa dos intelectuais e práticos de saúde,hoje, é reconciliar as irmãs e dar origem a uma NOVA CULTURA SANITÁRIA DE SÍNTESE.
Duas velhas culturas sanitarias,dois modos distintos(socialmente condicionados,como sempre) de abordar a doença mental:para os POBRES os manicômios,para os RICOS E A CLASSE MÉDIA atendimento individualizado.Nestas duas opções,dois modos implícitos de conceber a articulação entre o biológico e o social,entre DESTINO E CULTURA. Até mesmo uma contingência do modo de organizar e financiar os serviços ganhou foro de teoria: a teoria de que a eficácia da terapêutica depende do ato de pagar as consultas e sessões dos pacientes…
A cultura sanitária de síntese deve conceber o social passando pelo biológico. Deve compreender de modo dialético a articulação rica,complexa, entre o individual e o coletivo, a história da vida e a história da sociedade.
Toda a presente reflexão sobre a necessidade e os contornos da nova cultura sanitária e iluminada, e impregnada, de nossa experiência no campo da saúde mental.
Nós partimos de uma ação drástica, que ganhou grande repercussão: a intervenção na Casa de Saúde Anchieta, no dia 3 de maio de 1989. Motivada por denúncias de maus tratos e até mortes de pacientes,a intervenção foi cuidadosamente planejada: optamos por,digamos assim, pegar o touro pelo chifre,por enfrentar o tema da saúde mental pelo que tem de mais agudo, O LOUCO E O MANICÔMIO.
Fizemos um balanço da experiência de mais de dez anos de instalação dos ambulatórios de saúde mental em centros de saúde em São Paulo. Nenhum leito manicomial desativado. Na melhor das hipóteses, essa rede atendeu uma demanda reprimida. Na pior,criou uma demanda artificial,recrutada entre gestantes,escolares,adolescentes,idosos,pacientes etc. Os loucos continuaram sendo internados em manicômios públicos ou controlados por diversos profissionais PSI, eventualmente passando temporadas em clínicas especiais.
Resolvemos começar pelo hospício,e depois construir a rede ambulatorial (NÚCLEOS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAIS-NAPS). Nossa experiência não é apenas positiva,treze meses depois: eh facinante. Nosso modelo assistencial em saúde mental não trabalha com a idéia da atenção primária. Nossos NAPS fazem TODOS OS NÍVEIS DE ATENÇÃO, e são ambulatoriais e hospitalares (eu diria,hospitaleiros também) ao mesmo tempo.Não fecham nunca. E trabalham dentro e fora de suas sedes. Nosso modelo assistencial realiza,e exige,novas identidades profissionais: novos psiquiatras, novos psicólogos,assistentes sociais,terapeutas ocupacionais,enfermeiros,novas profissões,velhas profissões na equipe de saúde (gente de teatro,música,esporte,etc).

Mas, nosso modelo assistencial também exige uma nova cultura na própria sociedade. Ao intervir na cidade,com suas pinturas,manifestações,vídeos,jornais e festas, o trabalho em saúde mental renova valores que são aspirações seculares da humanidade: valores democráticos,de liberdade e igualdade.
Valores que brotaram na Revolução Francesa,há 201 anos, sob o nome de fraternidade, e que hoje traduzimos como SOLIDARIEDADE.

Apresentado em Porto Alegre,15 de junho de 1990

COSTA FILHO,David Capistrano, in
“DA SAÚDE DAS CIDADES”,Hucitec,SP,1995

“Este texto dá uma dimensao de pertencimento,inovação,construção política e resultado sanitário incontextável. Décio Alves”

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comentários
  1. Joanan Alves disse:

    a prevenção e a reparação são importantes, primeiro para se para se entender a prevenção é preciso existir uma situação anterior, no caso o paciente mental ou usuário ele só tem cuidados eficazes se forem preventivos, pois se forem reparativos, o sofrimento do usuário é grande e ele não sabe o que fazer pois, os momentos de angústias são indiziveis, o que fazer para um usuário que sofre de esquizofrenia e tem um surto em um dado momento? é falta de prevenção? pergunto: a reparação não foi feita corretamente? que haja mais prevenção de que reparação!

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