Doença Mental: Preconceitos e Estigmas, por Luis Bethancourt

Publicado: 10/01/2010 em Reforma da Saúde Mental, saude mental
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Quando pensei em escrever este artigo fiz uma pesquisa no Google sobre as palavras “Transtorno Mental e Preconceito” (36.300), “Transtorno Mental e Estigmas” (19.500), “Doença Mental e Preconceitos” (74.600), Doença Mental e Estigmas” (32.800) para saber se havia algo novo no mundo da net. A pesquisa deu os resultados mostrado entre parêntesis para cada uma delas.

Durante séculos as pessoas com sofrimento mental foram afastadas do resto da sociedade, algumas vezes encarcerados em condições précarias, sem direito a se manifestarem na condução da sua vida.

Assim, na cultura grega, os soldados espartanos eram considerados os guerreiros perfeitos, bem treinados fisicamente, corajosos e obedientes às leis e às autoridades. Para o guerreiro grego (século V a.C.) o ideal de beleza, é a busca da perfeição, do físico, do intelecto e do controle das emoções. Já nascendo como propriedade do Estado, os recém-nascidos de Esparta eram examinados por um conselho de anciãos, que condenava ao extermínio todas aquelas que apresentassem deficiência ou não fossem suficientemente robustas, por entender que não serviriam para a vida militar, único objetivo da existência de um espartano. Eram lançados do alto do Taigeto, abismo de mais de 2.400 metros de altitude, próximo à cidade.

Em Atenas, o infanticídio era praticado e defendido pelos intelectuais.Platão dizia ser necessária a eliminação dos débeis e dos deficientes e Aristóteles defendia que uma lei deveria proibir que fossem criadas as crianças aleijadas (Diaz, 1995).

Diversos povos da antigüidade tinham por hábito (no Oriente, alguns têm até hoje) que os filhos matassem os seus pais quando estes estivessem velhos e doentes. Na Índia os doentes incuráveis eram levados até a beira do rio Ganges, onde tinham as suas narinas e a boca obstruídas com o barro. Uma vez feito isto eram atirados ao rio para morrerem. Nos países árabes os pais eram deixados no deserto; entre os esquimós, no gelo. Entre os celtas (influência na cultura pragmática dos anglo-saxões) os druidas decidiam quem devia morrer.

Encontramos também entre os romanos algumas atitudes drásticas para com as pessoas com deficiência. A Lei das XII Tábuas, espelho dos costumes de sua época, iniciava a sessão sobre o pátrio poder com as palavras “é permitido ao pai matar o filho que nasceu disforme”. Os romanos tinham obsessão contra os defeitos físicos e até mesmo o imperador Claudius era ridicularizado por sua má aparência, dificuldades para falar e por mancar (Altavila, 1989).

Uma vez que a lei dava aos pais poderes de venda ou de morte sobre os filhos, as crianças que não eram desejadas podiam ser expostas na rua para que fossem recolhidas por quem as quisesse. Tudo dependia das condições econômicas ou da política patrimonial das famílias. Segundo Diaz (1995), algumas dessas crianças rejeitadas eram mutiladas para praticarem a mendicância. Sêneca declarou que assim como se matavam os cães quando estavam com raiva e cortavam-se as cabeças das ovelhas enfermas para não contaminar as demais, as crianças que nasciam defeituosas ou monstruosas deviam ser afogadas para que se fizesse a distinção entre as coisas inúteis e as coisas boas e saudáveis, como ditava a razão (Silva, 1987). É interessante ressaltar que Sêneca, ao lado de Cícero, Epicteto e Marco Aurélio, era um seguidor do estoicismo (Russell, 2002). Pessoas com deficiência, obviamente, não cabiam na sua concepção de igualdade entre todos os homens.

Na Grécia antiga, sinais corporais ou “stigmata” feitos por cortes ou queimaduras no corpo, marcavam as pessoas como diferentes. Pessoas com doença mental de há muito não são marcadas no corpo, mas atitudes críticas e prejudiciais podem ser tão danosas quanto as marcas corporais. Assim, se você for visto ou relata estar indo ao Psiquiatra pode já ser suficiente para “marcar” alguém como “mental” ou “psiquiátrico”.

Na Idade Média os deficientes mentais eram abrigados nas igrejas ou tinham a função de bobos da corte. Havia até a crença de que deficientes mentais eram seres diabólicos que mereciam ser castigados. Do século XVI ao XIX eram isoladas em asilos, conventos e albergues. Surgem aqui algumas instituições fechadas sem tratamento especializado nem programas educacionais.

Como bem descreve a Dra. Maria Helena Itaqui Lopes (2001), no final da Idade Média até a Idade Moderna houve uma mudança radical desses conceitos e o doente mental passou a ser visto como um possuído pelo demônio, dessa forma o tratamento antes humanitário foi mudado para espancamentos, privação de alimentos, tortura generalizada e indiscriminada, aprisionamento dos doentes para que estes se livrassem dessa possessão.

No século XVII já existiam hospitais para os excluídos socialmente, grupo constituído pelos doentes mentais, criminosos, mendigos, inválidos, portadores de doenças venéreas e libertinos. Embora a loucura tivesse passado do campo mitológico para o âmbito médico, ainda a medicina não tinha elementos para defini-la.

Surgiu, no século XVIII, Phillippe Pinel, considerado o pai da psiquiatria, que teve o mérito de libertar os doentes mentais das correntes. Os asilos foram substituídos, então, pelos manicômios, estes somente destinados aos doentes mentais. Desenvolveram-se com isso várias experiências e formas de tratamento nos hospitais La Bicêtre e Salpêtrière que difundiram-se da França para o resto da Europa.

No início do século XIX o tratamento do doente era uma releitura distorcida do tratamento moral de Pinel e utilizava medidas físicas e higiênicas como duchas, banhos frios, chicotadas, máquinas giratórias e sangrias. Aos poucos, o que era considerado como uma doença moral passou também a ter uma concepção orgânica, de acordo com o pensamento de vários discípulos de Pinel. As técnicas de tratamento usadas pelos que defendiam as teorias organicistas eram as mesmas empregadas pelos adeptos do tratamento moral, todas com explicações e justificativas fisiológicas para sua utilização. A partir daí prevalecem as teorias organicistas da doença mental decorrentes de descobertas experimentais da neurofisiologia e da anatomia patológica. Mesmo assim, entrando no século XX a idéia de submissão do louco persistia.

Como podemos ver, o preconceito e o estigma da pessoa portadora de qualquer transtorno ou deficiência já é antiga na história e até hoje permeia a nossa sociedade, por vezes fazendo de conta que ela não existe ou que seja alguma invenção da mídia.

Há alguns anos a Associação Brasileira de Psiquiatria, aproveitando a experiência do Royal College of Psychiatrists da Inglaterra e doNational Institute of Mental Health dos EUA, trouxe ao conhecimento de todos os interessados um material informativo a respeito dos Transtornos Mentais. Em 2001 a Organização Mundial da Saúde(OMS) lançou a campanha “Cuidar, sim. Discriminar, não” com o objetivo de provocar um impacto na opinião pública e estimular o debate sobre como melhorar as condições atuais de saúde mental no mundo todo e diminuir a discriminação em relação ao doente mental.

O problema é que quando alguém é marcado como diferente, é difícil para ele ser aceito, não importa o quanto ele tente. Eles não conseguem afastar o estigma e o resultado disso é que perdem a confiança em si mesmos. Com o tempo, começam a se sentir como estranhos e que não se enquadram na vida.

Atualmente, cerca de 400 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de perturbações mentais ou neurológicas, ou problemas psicossociais, como o uso abusivo de álcool e drogas. A grande maioria sofre silenciosamente com a sua doença, e também com a exclusão social que a doença provoca. A exclusão é o resultado dos estigmas e preconceitos contra a doença mental. Os estigmas são rótulos negativos usados para identificar pessoas que sofrem de doenças mentais e são barreiras que impedem os indivíduos e suas famílias de buscar ajuda, pelo medo de serem excluídos.

É isso o que mais contribui para os baixos índices de busca por tratamentos adequados. Todo mundo está vulnerável a sofrer de problemas mentais, que são diagnosticáveis, tratáveis e podem ser prevenidos a tempo.

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comentários
  1. Amei as informações sobre os estigmas e preconceitos referentes aos doentes mentais. Todas informações contribuirão para a pesquisa bibliográfica do meu curso de Serviço Social.

  2. Malu Calado disse:

    As marcas curam, o sofrimento engrandece a alma, o estigmatizado aprende a ser humilde; e a luta pela vontade da vida é capaz de transformar o caráter.
    Agradeço hoje por ser menos bonita por fora, menos interessante e menos aparentemente alegre, pois agora, ao menos, sei quem eu sou!
    Uma neurose grave levou- me ao limite, e quase me perdi no real assombroso do inconsciente. Após sair de uma clínica, por conta da depressão, e quase loucura, acting out… Parei para pensar no sofrimento dos bipolares, esquizofrênicos e doentes mais graves que me cercaram… Eu pude ver quão inteligentes, carinhosos e carentes eles são. Amo o diferente, pois sempre que me encontrei com eles eu aprendo a ser melhor. Vivo com medo, o pânico, me tranco… mas sou bem diferente hoje, graças aos meus médicos, família, e aos meus loucos queridos!

  3. Célia disse:

    Olá!
    Gostei muito de vários posts de seu blog, em particular, “Doença Mental: Preconceitos e Estigmas, por Luis Bethancourt”.
    Tenho um blog de variedades sobre o tema psicanálise e temas relacionados.
    Gostaria de pedir permissão para incluir esse seu post, logicamente com os devidos créditos, em meu blog também.
    E , como estou escrevendo um livro de ficção com o tema, também usufruir como fonte de consulta!
    Parabéns pelo blog, muito rico em informações, e escrito de forma séria e direta. Gostei!
    Grata,

    Célia

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