Neuroses e Psicoses

Publicado: 16/12/2009 em Reforma da Saúde Mental, saude mental
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Texto original no blog Saúde Mental e Harmonização
Alonso-Fernández (1982) afirmava que a nosografia psiquiátrica compreendia dois gêneros distintos: 1) a variante psíquica meramente anormal, cuja forma mais representativa corresponde às reações vivenciais ou psíquicas anormais e, 2) as variantes psíquicas mórbidas, que se subdividem em neuroses, psicoses e oligofrenias. Ele ainda diferenciou a neurose e a psicose. Dizia que a diferença entre ambas era: etiopatogênica e sintomatológica. Quanto a etiopatogenia, a neuroseé sempre resultante de um conflito intrapsíquico inconsciente (os complexos), enquanto que na psicose há uma disposição endógena ou constitucional. Quanto à sintomatologia, as manifestações são mais intensas na psicose enquanto que nas neuroses ocorre uma diminuição da liberdade acompanhada de angústia. O neurótico se mantém ainda no mundo real enquanto que o psicótico desliga-se deste, mesmo parcialmente.
Campbell (1986) acrescenta à diferenciação de neurose e psicose do Prof. Alonso-Fernández uma outra diferença: o terapêutico. No neurótico somente uma parte da personalidade é afetada e a realidade não se altera qualitativamente, embora o seu valor possa ser modificado quantitativamente. O neurótico atua como se a realidade tivesse o mesmo tipo de significação para ele e para o resto da comunidade. No plano psicopatológico, a mudança psicótica da realidade expressa-se parcialmente como projeção, sendo de um tipo que não ocorre nas neuroses. Nas neuroses, a linguagem como tal nunca é perturbada, ao passo que nas psicoses a linguagem é distorcida e o inconsciente poderá chegar a uma expressão verbal direta. Nas neuroses, o inconsciente nunca alcança mais do que uma expressão simbólica e a regressão a níveis primitivos não são observada na presença de consciência clara.
Quanto à psicose diz não existir uma definição única e aceitável do que é a psicose. Em geral, porém, os distúrbios classificados como psicoses diferem dos outros grupos de distúrbios psiquiátricos em um ou mais dos seguintes aspectos: 1) gravidade – as psicoses são distúrbios “importantes”, mais graves, intensos e desintegradores; tendem a afetar todas as áreas da vida do paciente; 2) grau de retraimento – um paciente psicótico está menos apto a manter relações afetivas com o objeto; a realidade externa, objetiva, tem menos significado para o paciente ou é percebida de um modo distorcido; 3) afetividade – as emoções são, com freqüência, qualitativamente diferentes do normal; outras vezes são, de tal modo exageradas, no aspecto quantitativo, que constituem toda a existência do paciente; 4) intelecto – as funções intelectuais podem estar diretamente envolvidas pelo processo psicótico, de modo que a linguagem e o pensamento sofrem perturbações; a capacidade de discernimento muitas vezes é deficiente; podem aparecer alucinações e delírios; 5) regressão – poderá ocorrer uma deterioração generalizada do funcionamento e um retorno a níveis muito primitivos de comportamento; tal regressão é mais do que um lapso temporário no amadurecimento e pode incluir uma volta a padrões anteriores e até primitivos.
Jaspers (1987) afirma que os sintomas da loucura ocorrem num tempo sem espaço próprio. A historicidade se faz na ausência do espaço real e objetivo. O interior comanda o sujeito no campo do espaço virtual e subjetivo, daí o fenômeno de alienação. Allienus fala do que pertence ao outro. O conflito entre o exterior e o interior possibilita o entendimento do sentido (interior) determinante de sua exteriorização. Existe, deste modo, uma espécie de transposição interior para o exterior, no âmago da alienação mental. A permeabilidade entre o espaço virtual e o espaço objetivo possibilita o jogo entre a projeção e a introjeção. A subjetividade exteriorizada produz o conteúdo dos fenômenos delirantes. O espaço real é comum a todos, enquanto o virtual só pertence ao sujeito que pode aqui realizar tudo, pois é senhor absoluto e onipotente em sua subjetividade (o indivíduo está totalmente livre de si mesmo). No espaço exterior real, objetivo, o sujeito está limitado pelo outro, que independe da vontade do sujeito.
DSM-IV (1985) não utiliza o termo neurose, enquanto que o CID-10 (1992) escreve: “A divisão tradicional entre neurose e psicose que era evidente na CID-9 não tem sido usada na CID-10. Ao invés de seguir a dicotomia neurótico-psicótico, os transtornos são agora arranjados em grupos de acordo com os principais temas comuns ou semelhanças descritivas. Psicótico foi mantido como um termo descritivo conveniente, particularmente em F23, Transtornos psicóticos agudos e transitórios. Seu uso não envolve pressuposto acerca de mecanismos psicodinâmicos, porém simplesmente indica a presença de alucinações, delírios ou de um número limitado de várias anormalidades de comportamento, tais como excitação e hiperatividade grosseiras, retardo psicomotor marcante e comportamento catatônico”. O CID-10 ainda menciona o termo neurose no capítulo do F48Outros Transtornos Neuróticos.

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